Existem mentiras necessárias?

Por Michele Müller

Mentir raramente é uma boa estratégia. Mesmo aquelas mentiras consideradas inofensivas são associadas à pouca qualidade nas relações.

Blanche Fisher Wright for The Real Mother Goose (1916)

Os constrangedores “foras” e os puxões de orelha levados na infância ensinam que, para que a franqueza não seja interpretada como rispidez, algumas mentirinhas se fazem necessárias. Isso fica mais claro à medida que percebemos os próprios sentimentos feridos com a sinceridade alheia, o que torna a troca de mentiras não apenas aceita, como desejada em muitas situações.

Os exageros, falsas confirmações e elogios fazem parte de uma bajulação superficial que sustenta vaidades – prática aparentemente inofensiva e frequentemente usada como amparo de uma autoestima má-construída.

As pequenas mentiras costumam ser recrutadas nas relações que nascem e sobrevivem na fina camada da aparência. Aprendemos que elas não nos fazem menos honestos, pois cumprem um papel na manutenção dos relacionamentos. No entanto, é possível que a função da mentira nesses casos seja superestimada: há evidências de que mentir geralmente não é uma boa estratégia nem mesmo quando as intenções e as expectativas nos levam a crer que sim.

Uma série de pesquisas da Universidade de Chicago constatou que a sinceridade tem mais valor que costumamos dar a ela e torna a comunicação mais eficaz. Em um dos experimentos, os participantes foram divididos em três grupos. Um deles recebeu instruções para agir da forma mais sincera possível em interações sociais durante alguns dias. Outro, para simplesmente ser agradável com as pessoas e o terceiro grupo foi instruído a apenas prestar atenção nas próprias atitudes. Depois, todos avaliaram seu desempenho e o impacto de seu comportamento.

Eles perceberam maior conexão social nas interações guiadas pela honestidade. Não era o que esperavam. Os participantes predisseram que isso seria prejudicial às relações, como foram levados a acreditar a vida inteira. Os resultados se repetiram na segunda parte da pesquisa, em que a instrução era ser honesto com alguém próximo em perguntas pessoais e normalmente difíceis de responder abertamente. Assim conseguiriam verificar o impacto da verdade tanto em situações em que ela ela pode ser vista como o oposto de gentileza ou simpatia quanto naquelas em que se opõe a segredos. 

Em todas as circunstâncias, a honestidade parece sair em vantagem. Para os pesquisadores, ao evitar a verdade perdemos oportunidade de criar relações mais próximas e significativas.

Existem outras pesquisas indicando que a expressão das emoções está relacionada a níveis mais saudáveis de pressão sanguínea e ao desenvolvimento de graus mais altos de intimidade (Srivastava, 2009) e que, por outro lado, o hábito de guardar segredos pode ser negativo para a saúde (Slepian, Chun, & Mason, 2017).

Para Art Markman e Bob Duke, autores de Two Guys in Your Head, a honestidade é desnecessária apenas nos casos em que ela não faria diferença à outra pessoa – como confessar que não gostou da roupa de seu parceiro depois que ele já está na festa. Logicamente, não é válida se usada como forma de ofensa e sim quando achamos que uma pessoa pode se beneficiar da informação – o que pode ser feito em um breve exercício de empatia.

A injusta má reputação da sinceridade está muito mais relacionada à forma como verdade é dita que ao conteúdo em si. Em geral, ela nos salva dos pequenos danos e das irrecuperáveis destruições que a mentira provoca. Sem falar na garantia da tranquilidade da consciência – o que, segundo Benjamin Franklin, é a condição mais fundamental para a felicidade. “Não existe felicidade sem conduta aprovada pela consciência”, ensinava um de seus aforismos; “A mentira é amparada por uma perna, a verdade por duas”, dizia em outro.  

Não mentir pode ser um exercício bastante difícil e doloroso. Um dos adeptos da verdade acima de tudo é o filósofo e neurocientista Sam Harris. Ele tomou a decisão de evitar qualquer tipo de mentira depois de estudar análise ética e constatar que infinitas formas de sofrimento e vergonha poderiam ser evitadas com o uso da verdade.

Muito antes dos pesquisadores estudarem os efeitos sociais da verdade, Harris havia concluído que mesmo as mentiras consideradas inofensivas, frequentemente ditas com a intenção de não desagradar o outro, são associadas à pouca qualidade dos relacionamentos. Em seu livro  “Lying” (Mentindo, em Kindle e-book), ele narra suas próprias experiências a partir da decisão de viver da forma mais transparente possível e discorre sobre os danos causados pela mentira.

“Muitos de nós passamos a vida marchando em direção ao arrependimento, remorso, culpa e decepção. E em nenhuma outra circunstância essas feridas parecem mais autoinfligidas, ou a dor que criamos mais desproporcional às necessidades do momento, que quando mentimos aos outros. A mentira é a principal estrada para o caos”.

O comprometimento com a verdade dá aos outros a segurança de saber que você que não fala pelas costas, que aquilo que diz é de fato o que pensa e que seus elogios não são bajulações vazias. Tudo isso, lembra Harris, ao custo de um desconforto de curto prazo, que pode ser suavizado se nos colocarmos no lugar da pessoa que recebe a informação e elaborarmos formas não ofensivas de se comunicar com sinceridade.

As mentiras são como escudos dos fracos e vêm aos montes e de todos os tamanhos, multiplicam-se rapidamente. À medida que surgem, empurram para um futuro temido e assombroso a colisão com a realidade, provocando estragos em seu caminho ao enfraquecerem e distanciarem as relações. 

A verdade, por outro lado, vem sempre no singular – ninguém pede para ouvir “as verdades”. É única e poderosa. Figura antipática e às vezes temida, ela não gosta de adulações nem de meias palavras. Pode trazer um leve desconforto ou uma dor intensa e por isso requer coragem de quem revela e de quem enxerga. Mas sempre tem o poder de nos fazer melhores.

Leia também:

Honestidade e a inevitabilidade da perda

 

Citações:

Srivastava, S. Et al. The social costs of emotional suppression: a prospective study of the transition to college.Pers Soc Psychol.2009 (4):883-97.

Slepian, Chun, & Mason, The Experience of Secrecy, J Pers Soc Psychol. 2017 Jul;113(1):1-33.

Levine, E. Et al. You can handle the truth: Mispredicting the consequences of honest communication., Journal of Experimental Psychology,setembro 2018.