Por que o desenvolvimento da coordenação motora fina é importante

Por Michele Müller

Mabel Lucie Attwell
Mabel Lucie Attwell

 

Quando a criança começa ir à escola, logo pensamos nos amigos que irá fazer e nos conhecimentos que irá aprender. Normalmente esquecemos de que, especialmente nas fases iniciais, a escola tem também a função de aprimorar capacidades básicas, como a coordenação motora. Apesar de parecer que ela se desenvolve naturalmente com as tarefas cotidianas, trata-se de um conjunto complexo de habilidades que dependem da integração de várias regiões do cérebro, incluindo áreas motoras, sensoriais e cognitivas.

Elas se desenvolvem gradualmente a partir de estímulos diversos e passam a servir como base para funções básicas relacionadas à autonomia da criança, como se alimentar, se vestir e manusear objetos, e a aprendizagens mais complexas, como escrita e capacidade de compreender símbolos gráficos. Por isso, uma grande parte das atividades praticadas nos primeiros anos da vida escolar têm o intuito principal de aprimorar a coordenação motora fina, enquanto outras, realizadas sobretudo nas aulas de educação física, são mais voltadas para a coordenação motora grossa – envolvendo grandes músculos, como braços e pernas.

No Tistu, as atividades são planejadas pela equipe de educadores para que sejam estimulantes, abrangentes – contemplando os diversos tipos de movimentos –, variadas e consistentes. Afinal, as crianças só passam a dominar o que é realizado de forma sólida e constante.

A maior parte dessas brincadeiras envolve materiais reciclados, muitas vezes produzidos pelos próprios professores a partir de caixas de ovos, tampinhas, botões, balões e, claro, suprimentos artisticos, como tintas e pincéis.

Muitas são projetadas para estimular capacidades motoras específicas – como a coordenação olho-mão, que permite às crianças precisão e controle ao manusear objetos, facilitando a escrita, o desenho e a destreza manual necessária para recortar, colar, amarrar nós e encaixar peças. Essas tarefas, por sua vez, ajudam a construir o raciocínio, linguagem, criatividade e autoestima dos pequenos.

 

Coordenação motora e cognição

A coordenação motora fina está também associada à visoespacial, que consiste na percepção e compreensão das relações espaciais entre objetos e coordenação dos movimentos com base nessas informações. Essa habilidade desempenha um papel na leitura e na escrita, pois possibilita reconhecer e reproduzir corretamente as formas e os padrões das letras e palavras.

À medida que adquirem o controle dos músculos das mãos, dedos e rosto, as crianças estão fortalecendo a musculatura envolvida na produção dos sons da fala e da articulação correta dos fonemas.

Por outro lado, dificuldades de coordenação visomotora e visoespacial, observadas no traçado de linhas retas, desenhos, encaixe de peças ou acompanhamento de ritmo e de sequência de movimentos, podem ser indicativos de distúrbios de aprendizagem relacionados à linguagem e ao domínio motor ou de problemas de atenção.

 

A coordenação motora no cérebro

Duas áreas cerebrais essenciais envolvidas na coordenação motora fina são o córtex motor primário e o córtex pré-motor.

O primeiro é responsável por enviar os comandos motores necessários para executar movimentos específicos das mãos e dos dedos. À medida que as crianças praticam e aprimoram suas habilidades motoras finas, ocorre uma remodelação neural nessa região. Isso resulta não apenas em uma melhor representação e controle dos músculos, como no fortalecimento de circuitos cerebrais envolvidos em processos cognitivos mais amplos, o que pode ter efeitos positivos na aprendizagem.

Já o córtex pré-motor desempenha um papel importante na preparação e planejamento de movimentos complexos. Ele coordena a sequência precisa dos músculos das mãos e dos dedos, permitindo que as crianças realizem atividades que exigem destreza manual, como escrever e amarrar cadarços.

Além dessas áreas, a coordenação motora fina está relacionada ao córtex parietal, responsável pela integração das informações sensoriais provenientes das mãos, permitindo um feedback preciso sobre a posição, o toque e a pressão exercidos pelos objetos. Outra estrutura importante para a coordenação é o cerebelo, responsável por coordenar e ajustar os movimentos.

A melhoria da coordenação motora fina não só permite que as crianças realizem tarefas cotidianas com mais facilidade, como beneficia o desempenho acadêmico. O desenvolvimento dessas habilidades está associado a melhorias na atenção, memória e resolução de problemas.

 

Como estimular a coordenação

É importante que habilidades motoras sejam trabalhadas também em casa, em atividades que também estimulam a criatividade. Alguns exemplos de como isso pode ser feito em família:

– Forneça papel, lápis de cor, giz de cera e tintas para a criança experimentar diferentes técnicas de desenho e pintura.

– Ofereça massinhas de modelar para a criança, permitindo que elas amasse, estique e molde a massa com as mãos.

– Jogos que envolvem a colocação de peças em seus devidos lugares, como quebra-cabeças e jogos de montar, ajudam a aprimorar a coordenação olho-mão e a manipulação precisa de objetos.

– Proporcione materiais como tesouras sem ponta para atividades de recorte.

– Imprima labirintos em papel e peça às crianças para traçarem o caminho com um lápis, seguindo as linhas. Isso ajuda a melhorar a coordenação olho-mão, concentração e habilidades de planejamento.

– Forneça pinças de plástico ou mesmo pinças de roupas e peça às crianças para transferirem pequenos objetos, como pompons coloridos, de um recipiente para outro.

– Incentive as crianças a construírem estruturas usando blocos de montar, como LEGO ou similares. Além da manipulação precisa dos blocos a atividade promove o raciocínio espacial.

– Peça às crianças para colocarem palitos de dente em frutas ou legumes, como uvas ou cenouras baby, uma atividade que envolve movimentos delicados.

– Ensine as crianças a fazerem dobraduras de papel simples, como aviões de papel, barcos ou animais.

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