Aquilo que nos move: onde podemos encontrar motivação?

Por Michele Müller

Precisamos de estímulos para persistir em tarefas criativas e desafiadoras. Mas aqueles focados em ganhos financeiros e materiais são menos eficazes que recompensas baseadas na valorização, compreensão e conexão humana.

La bourse de l’oncle Romain. Artista desconhecido, 1889

Ao longo de uma década, pesquisadores da Universidade de Harvard coletaram dados de um diário eletrônico de profissionais de diversas empresas. Descobriram, a partir de 12 mil registros diários, que nos dias em que as pessoas se sentem mais felizes elas também estão mais produtivas e apresentam as suas melhores ideias. Ao contrário do que se acredita, em dias de muita pressão, os participantes acabam produzindo menos.

Segundo o estudo, as pessoas sentem-se desmotivadas e frustradas em um terço dos dias de trabalho – justamente naqueles em que rendem menos. Há evidências de que nesses dias a produtividade cai consideravelmente. Em períodos de estresse, nosso desempenho cognitivo é 50% inferior. Temos problemas de memória, dificuldade para processar a linguagem, raciocínio lógico mais lento e nos distanciamos de qualquer solução ou ideia criativa.

Portanto, para sermos mais produtivos, precisamos estar bem. E buscar qualidade de vida não significa apenas ter tempo livre, férias e momentos de descanso. Pesquisadores chegaram à conclusão de a visão daquilo o que nos motiva não raramente é pouco producente – como, por exemplo, focar os estímulos em recompensa material e objetivos apontados especialmente e ganhos financeiros. Apesar de serem os primeiros a serem considerados, os incentivos como remuneração têm influência bem menor no sentimento de realização pessoal e profissional do que aqueles que se encontram no âmbito da comunicação humana e conexão social.

Inúmeros estudos nas últimas décadas mostram que caminho para a realização está dentro de nós e pouco tem relação com aquilo o que gera ambição. Com objetivos tangíveis, voltados para o desenvolvimento pessoal, transmissão de exemplos e valores, envolvimento em um trabalho significativo, alcançamos resultados mais gratificantes e criativos.

Essa motivação que vem de dentro não nasce sozinha; ninguém acorda sentindo-se surpreendentemente motivado. O propulsor dessa energia criativa é o meio social: tudo o que carrega propósito é feito, direta ou indiretamente, para os outros, por causa dos outros. Somos dependentes de reconhecimento e de compreensão e, ao mesmo tempo, responsáveis por agir como motivadores das pessoas que nos cercam – valorizando, escutando, buscando conexão e influência mútua.

Agraciados por esse sentimento inquieto vindo de fora, ganhamos a estrutura emocional necessária para construir a bomba interna que passa a pulsar a cada tarefa que passamos a considerar como gratificante por ela mesma e não pelo impacto que irão gerar. É num movimento de fora para dentro que alcançamos a motivação intrínseca, essencial para persistimos na busca de qualquer objetivo.

Além da motivação gerada pelos valores que nós trazemos para nossas ações, uma importante via para a realização está no exercício da gratidão. Não se trata de um sentimento que surge sem ser convocado e sim uma ação, uma decisão, um hábito conscientemente formado, que pode envolver reflexão, meditação, escrita, comunicação e outras ações.

Somos programados para dar muito mais importância aos sentimentos negativos por uma questão de sobrevivência. Nossa natureza favorece o constante estado de alerta como uma forma de nos proteger. E assim, as preocupações que nem se concretizam nos consomem tanta energia que raramente paramos para enxergar o que está certo, o que merece admiração e contemplação.

Portanto, ocupar a mente com problemas, mesmo que sejam apenas possibilidades, é, de uma forma geral, nosso modo operante. Nossa mente é uma máquina de resolver problemas e, quando não há nenhum concreto, ela cria. Mudar a perspectiva e passar a buscar o que deve ser valorizado exige um certo esforço – como qualquer prática que trazemos para a a vida diária.

Enxergar valor naquilo que temos no lugar de nos preocupar com o que não temos desperta outros sentimentos positivos, que levam a uma postura pró-ativa e influenciam atitudes movidas por ela. Desde a antiguidade, pensadores salientam a importância da gratidão para uma transformação nas nossas vidas, que começa de dentro, mas pode influenciar de forma poderosa os relacionamentos e os acontecimentos que compõem nossos dias.

Em uma reflexão sobre essa prática, o monge David Steindl-Rast coloca a gratidão no centro não apenas do nosso próprio bem-estar, mas do funcionamento harmônico da sociedade. “Se você é grato, você age com um senso de suficiência e não um senso de escassez e você está disposto a compartilhar. Se você é grato, você aprecia as diferenças entre as pessoas, e você respeita a todos e isso altera a pirâmide do poder sob a qual vivemos. Um mundo grato é um mundo de pessoas alegres”.

 AMABILE, Teresa e KRAMERSEPT , Steven. Do Happier People Work Harder? Harvard Business Review, 2011.

 HOFFELD, David. The Science of Motivating Sales People. Hoffeld Group. Extraído de www.hoffeldgroup.com

 STEINSL-RAST, David. Quer Ser Feliz? Seja Grato. Ted Talks www.ted.com. Nov. 2013.

 

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