Honestidade e a inevitabilidade da perda

Por Michele Müller

A verdade não tem retorno, não encolhe, não se dissolve, não é esquecida. Conforme colocou  Liz Gilbert, ao revelar seu romance com a parceira Rayya Elias, “uma vez que você a enxerga, não pode desenxergar’”. Se não permitir que ela apareça, ela vai se fazer notar, vai ganhar outras formas, vai fazer estragos, vai te atormentar.

Narrativas, de Edmund Joseph Sullivan

A Honestidade, reflete o escritor e poeta David Whyte (Consolations), começa quando temos a humildade de admitir nossa condição de não querer ouvir a verdade e necessariamente passa pela perda e pelo luto.

A perda – ou as perdas – não são produto da verdade. São reveladas por ela, mas já estavam lá, instaladas em lugares longe da percepção. Disfarçadas pelos hábitos, pelos pequenos rituais diários, mantinham no conforto de uma realidade previsível, familiar, aparentemente inquebrável.

Ao ganharem nitidez, no encontro com a verdade, essas perdas e esses enganos podem ferir e destruir, mas nunca sem transformar. Uma transformação que David Foster Wallace (Graça Infinita) entende como libertadora: “A verdade pode te libertar, mas não antes de terminar o que tem que fazer com você”.

A verdade transforma quem a enxerga, transforma quem a revela. Permite a criação de uma nova realidade, uma que reconhece nossa condição vulnerável, que não nos priva do contato com o incômodo, que redimensiona expectativas e reorganiza prioridades.

“Honestidade não é a revelação de uma verdade fundamental que nos dá poder sobre outros ou sobre nós mesmos, mas uma incorporação robusta do desconhecido desdobramento da vulnerabilidade da existência, um reconhecimento da nossa impotência, do nosso conhecimento limitado, do medo do desconhecido, do espanto diante da medida generosa de perda que é conferida até à vida mais medíocre. (…)

“Honestidade não é uma arma que mantém a perda e a mágoa à beira, mas nossa habilidade de encostar no chão da realidade, o mais difícil de alcançar, o lugar onde habitamos, a morada, a fronteira do fôlego, onde não temos a opção de escolher entre ganho ou perda”.

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