Como a mente compreende conceitos abstratos

Por Michele Müller

E por que esse conhecimento é fundamental para uma educação eficaz

 

Alesha Sivartha, em The Book of Life

 

Se, por um lado, a ampliação do vocabulário permite a ampliação da própria consciência e modifica a forma com as pessoas processam suas experiências no mundo, por outro, são as próprias experiências que dão sentido à palavra, em uma relação recíproca e interdependente. No entanto, a educação não leva em consideração a forma como a linguagem é compreendida e desenvolvida ao trabalhar uma série de conteúdos que, no decorrer no ensino fundamental, vão ficando cada vez mais abstratos e distantes do universo dos alunos.

As apostilas e livros didáticos esperam que crianças de menos de dez anos entendam que, na época do descobrimento, havia “características comuns” aos povos indígenas, apesar da “grande diversidade” entre eles, como o fato de não “considerarem a terra uma propriedade particular”. Também devem entender o que é “subsistência”, “produto do trabalho” e “lucro“. Nesse caso, o domínio desses conceitos é um pré-requisito para a compreensão desta pequena parte de um conteúdo, que vai muito além dos fatos citados. O problema é que, em geral, as crianças não têm.

Isso não quer dizer que nesta idade não seja possível compreender conceitos complexos: significa que o conteúdo de disciplinas como história, geografia e ciências ainda é totalmente voltado a fatos e pressupõe que os alunos irão, naturalmente, absorver o significado – ou, normalmente, os muitos significados – de um vocabulário abstrato, muitas vezes relacionado a práticas longe da realidade deles. Aprender história sem entender profundamente o sentido de palavras como subsistência, propriedade particular, influência e diversidade é como assistir a um filme em baixa resolução e numa língua estrangeira: se tem uma ideia vaga, e muitas vezes distorcida, do que está acontecendo.

Conceitos abstratos são construídos por um conjunto de relações e só fazem sentido quando essa rede está bem trançada. Ela envolve uma série de elementos concretos (como, no caso de subsistência, a terra, a plantação, o alimento, os animais) e outros abstratos (como o lucro, a propriedade, o consumo, o essencial). Essas abstrações estão, por sua vez, ligadas a outros conceitos, em uma série de incontáveis relações. A aprendizagem só ocorre quando o novo elemento é encaixado nessas redes já existentes. Se não é relacionado, não faz sentido e se não faz sentido, é descartado pelo cérebro.

Essas relações permitem que o novo conceito seja visualizado, ou seja, que o cérebro crie uma imagem mental para ele, o que geralmente ocorre de forma inconsciente. Tanto é que o fato de a mente dar forma a palavras abstratas não era amplamente aceito até recentemente, quando estudos com neuroimagens passaram a amparar essa teoria. Muitos filósofos, no início do século passado já relacionavam os processos cognitivos às sensações físicas, mas até pouco tempo atrás a visão mais aceita era de que corpo e mente agiam de forma separada, de que o pensamento envolvia certas partes do cérebro e as percepções envolviam outras. Hoje sabemos que essa divisão não é bem definida.

Temos consciência de uma uma parte muito pequena – estima-se que um por cento – do que se passa em nossa mente. Enquanto esses processos conscientes são lineares, geralmente seguindo uma sequência lógica, a mente segue, simultaneamente, vários caminhos paralelos que caracterizam a forma como as pessoas interpretam e que passam por movimentos, imagens e outras percepções.

Investigações neurocientíficas mostram que quando pensamos sobre conceitos amplos – como fracasso, inspiração, ambição, comodismo, rejeição, confiança – ativamos áreas visuais e motoras do cérebro, ou seja, associamos a abstração a elementos concretos. Pode parecer difícil identificar essa relação, por ser inconsciente, mas o mais provável é que o cérebro crie sentido às palavras de forma metafórica.

Quando falamos em afeto, por exemplo, ativamos no cérebro regiões associadas ao conforto e ao calor. Visualizamos o futuro como algo que está “à frente”; sentimentos negativos são universalmente compreendidos como “para baixo”; descrevemos etapas da vida como caminhos; relações são descritas em termos de percursos e direções. O linguista George Lakoff, autor do termo corporização cognitiva – embodied cognition – ampara todo o seu trabalho na ideia de que o pensamento é, necessariamente, metafórico.

Segundo o linguista Benjamin Bergen, em seu livro Louder Than Words (Mais Alto Que Palavras), “ações imaginadas, relacionadas metaforicamente às situações, abstratas produzem melhor compreensão dos conceitos expostos”. Juntamente com Nian Liu, em um de seus estudos ele investigou se a mente cria simulações mentais de espaços quando utilizada linguagem abstrata da mesma forma como procede na linguagem concreta, medindo o tempo de resposta dos participantes com relação à locação espacial implicada na frase. Eles encontraram evidências de que mensagens abstratas também acionam simulações mentais, embora precisem de um tempo maior para serem processadas.

A utilização de metáforas e analogias no ensino de conceitos abstratos, ao descrevê-los em termos mais concretos, respeita o processo como, inconscientemente, o cérebro aprende e dá sentido à linguagem. Muito mais que recursos poéticos ou literários, geralmente ensinados de forma isolada, são essenciais para se criar relações da nova informação com o mundo físico e com diferentes percepções.

 

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