Como um imperador romano pode nos ajudar a construir resiliência nos filhos

Por Michele Müller

Depois de meses em isolamento social imposto pela pandemia, meu filho adolescente, vendo a cena de um seriado em que um grupo de jovens estava rindo e conversando em um campus movimentado, comentou: “É tão estranho ver isso… O mundo não é mais assim, parece que tem algo de errado nesta cena”. Para os adultos, especialmente os mais extrovertidos, estar entre amigos faz falta. Para crianças e adolescentes é mais que isso: é uma necessidade. O que a família pode oferecer vai até um ponto. É no meio social que eles descobrem motivação para aprender, descobrem quem são, do que gostam, o que querem. Então é normal que, mesmo no conforto de seus quartos, tendo conquistado horas extras de games e mantendo algum contato virtual com colegas, eles vivenciem, neste período, momentos de desânimo e desmotivação.

Se há algo que torna mais fácil essa fase – e não apenas para os jovens – é passar por ela coletivamente. Isso faz com que todos percam um pouco o direito de reclamar. Mesmo inconscientemente, sabemos que temos a responsabilidade de fazer o mínimo que podemos para evitar que o ano torne-se ainda mais pesado, e esse mínimo é monitorar nossas doses diárias de lamentações.

As próprias crianças percebem isso: se todas as outras estão na mesma situação, é porque não adianta reclamar. O que nos faz amargos geralmente não é uma situação em si, mas o fato de nos sentirmos injustiçados ou em desvantagem com relação aos outros. Quando todos saem perdendo, ninguém mais é vítima.

É claro que o fato de meu filho ter considerado utópica uma cena de pessoas felizes reunidas aperta um pouco o coração. Para crianças os meses são longos, pois a percepção de tempo é diferente. Claro que lamento a ausência da alegria que os amigos trazem para o dia a dia dele; e que lamento por todas as crianças a privação de estarem entre colegas, brincarem no parque, ensaiarem para apresentações.

Mas lamentar não só é inútil, como alimenta o sentimento que nos incomoda. Podemos reagir de forma diferente ao coração apertado diante dos filhos tristes ou às nossas próprias frustrações, que neste ano estão difíceis de contar. A forma como reagimos é o modelo que apresentamos às crianças de como lidar com adversidades. Isso não significa que nós, adultos, temos todas as respostas e que não devemos, também, ter um modelo a seguir.

Ter um guia para enfrentar dificuldades da vida pode nos ajudar a evitar muitos tropeços e a nos refazermos depois das quedas. Minha sugestão, inspirada nas incertezas e inseguranças que passaram a nos assombrar mais intensamente nos longos meses de epidemia, é buscarmos ajuda daqueles que dedicaram sua vida a descobrir e a ensinar como enfrentar adversidades de forma sábia, sem perder a tranquilidade, o equilíbrio mental e a capacidade de tomar boas decisões.

Quem pode nos guiar com maestria por esse conhecimento são os filósofos estóicos – mais especificamente aquele que pôde colocar as ideias estóicas na prática em situações extremas, sendo imperador de um reino que vivia uma época marcada por invasões violentas e uma pandemia devastadora, causadora de aproximadamente cinco milhões de mortes.

Marco Aurélio, o imperador filósofo, que governou Roma entre 161 e 180 d.C, teve muitas oportunidades de perder a cabeça e se deixar comandar pelo medo, raiva ou vaidade, como muitos fizeram naquela época tão marcada por conflitos violentos. Dizem que, no entanto, ele nunca perdeu a tranquilidade e o bom senso, mesmo tendo passado por inimagináveis situações de sofrimento, como a perda dos filhos e ver seu reino em guerras. Talvez nós, que perdemos completamente a calma quando um voo é cancelado ou quando os planos são adiados, possamos aprender a pensar um pouco mais como ele.

O imperador recorreu aos estóicos, mais especificamente Epiteto, para formar seu caráter. E com as constantes provações pelas quais passou, pôde também somar seus próprios pensamentos e práticas à filosofia.

Resumi parte de seus ensinamentos, que podem nos ser esclarecedores em momentos de ansiedade ou tristeza, em seis princípios estóicos. Por serem muito práticos, servem como passos que podemos exercitar e que, desde cedo, podem ser ensinados às crianças.

1. Aceite que a vida sempre trará adversidades e sofrimento.

Imaginar que felicidade é um estado constante ou um ideal a ser conquistado é ingenuidade e contraprodutivo. Quando mais a perseguimos, mais ela escapa, pois essa busca traz frustração constante.

Essa é uma mensagem importante de se passar às crianças desde cedo. Sentimentos presumidamente opostos fazem parte da mesma composição, um permitindo a existência do outro. Ninguém é corajoso sem ter experiência do medo, assim como não existe felicidade sem a tristeza ou força sem dor.

2. Tenha em mente que o objetivo da vida é ação.

Se felicidade não é um objetivo a se almejar, o que verdadeiramente nos motiva a sair da cama de manhã? Para os estóicos, o propósito que nos move é a sabedoria, é podermos nos tornar melhores e mais fortes. Marco Aurélio falava em ação. Agir de forma sábia em todas as situações é cumprir nosso propósito de deixar o mundo um lugar um pouco melhor. E para agir de forma sábia, é necessário o esforço e o sofrimento.

Às crianças, podemos ensinar isso valorizando o que elas fazem pelos outros, reconhecendo seu esforço, elogiando sua coragem de aceitar desafios, de arriscar e errar.

3. Tenha confiança de que é mais resiliente que imagina.

Essa é a boa notícia dos estóicos. Quando aprendemos a confiar na nossa capacidade de recomposição e de adaptação às circunstâncias, avançamos com coragem. Não à toa, estoicismo é fortemente associado à resiliência mental – e também física.

Um estóico, ao levar o filho para ganhar uma injeção, não diria para não ter medo, porque não vai doer. Diria que é possível que doa, mas a dor é uma sensação que faz parte da vida, ele irá aguentar porque é forte e logo passará.

4. Não lamente os infortúnios.

Os estóicos tinham consciência da relação da linguagem com o pensamento que, por sua vez, influencia os sentimentos. Lamentações e reclamações são uma forma de alimentar as sensações que queremos evitar. Eles já sabiam o que viemos constatar recentemente com a neurociência: palavras não apenas refletem os sentimentos, mas ajudam a construi-los e a definir as situações como boas ou ruins.

O alívio momentâneo que uma queixa pode trazer não vale o prolongamento de um sentimento que não faz bem. O melhor a pensar, segundo Marco Aurélio, é que não são as circunstâncias que são boas ou ruins e sim o julgamento que fazemos delas. “Ao invés de lamentar o infortúnio, contente-se com o fato de ser capaz de enfrentá-lo com tranquilidade”.

Esse ensinamento pode ser traduzido de uma forma bem simples para a linguagem das crianças: sabe como as convencemos a tomar remédio dizendo que é amargo na hora, mas depois nos faz sentir melhor? Reclamar é o contrário de remédio: pode aliviar na hora, mas faz a gente se sentir pior depois.

5. Reflita se você tem realmente algum controle sobre a situação.

Isso te fará concluir que quase nunca tem. Então simplesmente aceite e deixe passar. Por mais que gostaríamos, não temos controle sobre as pessoas e muito menos sobre situações que acontecem com a gente. Podemos, no máximo, servir como influência aos outros.

Nem mesmo sobre o que sentimos depende de nós. Marco Aurélio lembra que os sentimentos não nos definem e sim nossas ações, pois é sobre elas que temos controle.

Com crianças, podemos exercitar essa prática mostrando a elas que é normal que coisas que nos deixam tristes ou com medo, que muitas vezes não é culpa de ninguém e que vai passar.

6. Considere a possibilidade de situações e pessoas te decepcionarem.

Parece pessimismo? Não gastamos uma quantidade razoável de dinheiro em seguros? Eles não servem para nos desanimar e sim para nos tranquilizar, pois nos sentimos mais preparados para enfrentar um incidente.

A ansiedade é, de forma talvez paradoxal, bem maior quando a expectativa que construímos é muito alta e não nos preparamos para o fracasso da investida. Nesse caso, abrimos espaço para que mais coisas deem errado e, quando isso acontece, nos sentimos injustiçados e despreparados. Isso é válido para tudo – de um relacionamento à morte.

Não contemplar a possibilidade de adversidades acontecerem com a gente não significa que nosso inconsciente não está fazendo esse trabalho por nós, mas de uma forma que promove ansiedade e nos afasta cada vez mais da realidade. Marco Aurélio acordava todos os dias e, como um exercício, lembrava-se de que certamente iria lidar com pessoas egoístas e mal-intencionadas.

Podemos ensinar desde cedo as crianças a considerarem a possibilidade de planos darem errado sem que isso seja o fim do mundo, dizendo coisas como “Se der errado, não faz mal, tenta novamente”; “a vida nem sempre é justa, quanto mais cedo você se acostumar com isso menos vai sofrer” ou “deu errado? Que bom, você aprendeu com isso”.

Complemente esse texto:

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