A função da linguagem no desenvolvimento da inteligência emocional

Por Michele Müller

Frederic de Coursy (1839)

Mais que possibilitar a expressão de experiências, com a finalidade de influenciar aqueles com os quais interagimos, a linguagem molda a forma como percebemos o ambiente, como interpretamos o outro e como compreendemos as próprias emoções.

“Quando você ensina conceitos emocionais às crianças, ensina mais que comunicar: cria a realidade delas – uma realidade social”, destaca a neurocientista Lisa Barrett, autora de How Emotions Are Made (Como As Emoções São Construídas), baseado em suas pesquisas que apontam uma nova perspectiva na compreensão dos sentimentos, não como respostas pré-programadas, mas como construções sociais – o que leva a uma visão mais flexível sobre a forma como podemos lidar com eles.

Diferentemente de palavras que representam elementos concretos, os conceitos abstratos geralmente dependem do contexto para serem definidos e explicados. E é nessa maleabilidade que está a riqueza de uma língua – e também, de acordo com Barrett, do repertório emocional que cada um carrega. Por isso, com o ensino de conceitos, damos às crianças e adolescentes “ferramentas que irão ajudar a regular seu equilíbrio fisiológico, a encontrar significado nas suas sensações e a influenciar os outros de forma mais eficaz. São habilidades que elas usarão a vida inteira”.

A linguagem abstrata permite enxergarmos coisas que antes se encontravam em um ponto cego da percepção. Como se fossem lanternas da mente, as palavras expandem os limites do nosso mundo interno, como defendeu o filósofo alemão Wittgenstein. Um mundo que é inteiramente guiado pelos e sentimentos – das grandes conquistas às piores decisões.

Para conseguir identificar esses sentimentos e os ingredientes que os compõem é necessário nomeá-los. A partir da clareza trazida pelas palavras certas, damos ao cérebro a capacidade de perceber, categorizar e predizer as emoções – ferramentas fundamentais para que possamos lidar melhor com elas e responder aos estímulos de forma mais flexível e funcional. Quanto maior o vocabulário, portanto, maior o que Barrett chama de “granularidade emocional”.

Um repertório que possibilita expressar da forma mais acurada possível o leque de nuances emocionais que as diversas situações e estímulos podem evocar está relacionado à capacidade de construir experiências mais refinadas, permitindo melhores predições e instâncias de emoções que são modeladas de acordo com cada situação.

O desenvolvimento da inteligência emocional a partir da identificação das emoções por meio de linguagem é o que chamamos de processo top-bottom: do cognitivo para o emocional, ou das regiões corticais para as subcorticais. Como muitos processos mentais, a relação cognição/emoção ocorre por uma via de mão dupla: os estímulos que envolvem o pensamento, ou seja, que operam no modo cognitivo, agem sobre as emoções, da mesma forma como o contrário também é verdade.

As palavras são armazenadas no cérebro dentro de uma rede de associações, formando o que chamamos de conceitos. Toda a aprendizagem ocorre por meio conceitos e são eles que guiam as previsões que o cérebro faz constantemente. As previsões provocam alterações fisiológicas e as alterações determinam como nos sentimos. Os sentimentos, portanto, alteram o pensamento assim como o pensamento altera os sentimentos.

Dentro dessa mesma perspectiva, o neurocientista e psiquiatra Daniel Siegel defende que o vocabulário relacionado às inúmeras experiências internas seja ensinado a crianças e adolescentes como forma de educação emocional – uma técnica que ele chama de “name it to tame it” (uma rima em inglês que significa nomeie para amansar, ou domar). Não saber o que sente pode ser confuso e até aterrorizante, conforme explica no livro Cérebro do Adolescente (ed. nVersos, 2016).

“Dividir a sua experiência com outros pode muitas vezes fazer com que momentos terríveis sejam compreendidos e não se transformem em trauma. Tanto seu mundo interno quanto relações interpessoais irão se beneficiar da identificação do que está acontecendo, trazendo mais integração à sua vida”.

Há muitos estudos que confirmam esse raciocínio. Em uma investigação conduzida pelo Centro de Inteligência Emocional de Yale (Brackett et al., 2012), foram trabalhados conceitos emocionais em 63 classes de crianças em sessões de meia hora por semana, durante dois anos, e avaliado seu desempenho acadêmico e social. Em ambos domínios, aquelas que participaram do programa apresentaram melhores resultados que alunos que não tiveram a instrução.

Outra pesquisa indicando que o aprendizado de palavras relacionadas aos diversos estados emocionais leva a um refinamento dos sentimentos envolveu pessoas com aracnofobia: foram avaliadas três abordagens distintas e aquela que utilizada o repertório mais rico de sensações mostrou-se mais eficaz e duradoura que as outras (Kircanski et. Al, 2012).

Em outro conjunto de estudos, foi constatado que aqueles que possuem um vocabulário emocional mais refinado apresentam mais flexibilidade para regular suas emoções e são menos propensos a beber em excesso quando sob muito stress e a agir agressivamente em situações em que são contrariados (Kashdan et al., 2015).

Os resultados do ensino e da evocação de conceitos abstratos, portanto, não se restringem a um enriquecimento cognitivo, mas expandem-se ao universo social e emocional, afetando profundamente essas experiências. Na próxima coluna veremos como o cérebro constrói sentido à linguagem abstrata, um conhecimento que nos fornece meios e formas mais eficazes de ensinar  esses conceitos.

 

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