Emoções não devem ser renegadas ou condenadas, mas aceitas como transitórias

Por Michele Müller

A divisão definida entre certo e errado, sofrimento e alegria, confiança e insegurança nos coloca em contradição e em um estado permanente de julgamento. As definições rígidas geram a necessidade de perseguirmos um ideal, bem posicionado no campo do que é bom ou correto – como se felicidade e autoconfiança, por exemplo, fossem recompensas, méritos individuais palpáveis e passíveis de serem sustentados de forma permanente.

No pensamento oriental esses limites se dissolvem, o que leva à dissolução também daquilo o que nos define e nos separa dos outros. A partir dessa perspectiva, o desenvolvimento pessoal passa pelo reconhecimento de que não somos rigidamente definidos, de que prazer e dor não são opostos que nunca se encontram e de que emoções – mesmo as que facilmente categorizamos como negativas – não devem ser condenadas ou renegadas. Devem ser identificadas, aceitas e reconhecidas como transitórias, tão fluídas como os estados que nosso imaginário, esperançoso, eterniza (ao menos nas histórias) em frases como “felizes para sempre”.

Na psicologia oriental, uma das maneiras de aliviar sentimentos considerados desconfortáveis consiste em assumir o sofrimento até tornar-se ele próprio, derrubando abarreira dualística de sujeito versus objeto. Focar na dor, observando com atenção suas manifestações até que se torne possível descrevê-la, como fazem os poetas, é outra forma de livrar-se do desconforto.

Kojima Island (autor desconhecido)

Abraçar um sentimento significa apreciá-lo como força transformadora, como parte de quem somos – algo bem diferente de reclamar dele obsessivamente. Para isso, a psicologia japonesa tem um nome: shinkeishitsu. Os que falam de sentimentos de forma negativa, buscando a empatia dos que escutam, acabam confinados em um castelo egocêntrico de emoções e facilmente se convencem de que não são compreendidos, o que provoca uma sensação de afastamento dos outros.

Aceitar a dor como parte natural da vida e daquilo o que nos faz humanos é essencial não para afastá-la definitivamente, mas para conviver com ela da melhor forma.

“Temer a morte, não gostar do desconforto, lamentar calamidades e reclamar daquilo o que não conseguimos controlar são respostas e comportamentos naturais. Tão naturais como água fluindo em direção a um nível mais baixo. Da mesma forma, ficamos com a cabeça pesada depois de dormir demais, estômago pesado depois de comer demais e o coração disparado depois de um susto. São fenômenos que não podem ser manipulados ou convenientemente moldados para encaixar na nossa vontade. Temos que obedecer a natureza.”

Shoma Morita (fundador da terapia japonesa Morita), 1928.

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