A falta de ritmo pode indicar problemas de aprendizagem

Por Michele Müller

19 de Abril de 2017

Nossa realidade é como uma transmissão ao vivo de um programa de tevê: apesar de registrarmos e percebermos como instantânea, sempre nos chega com um leve anacronismo. É que para dar um sentido a qualquer estímulo que recebemos e integrar as informações que nos chegam por diversas vias, o cérebro precisa de tempo. Nesse relógio da mente, que trabalha em milissegundos, a precisão é fundamental. Qualquer desorganização que provoque um atraso no processamento da informação pode representar um desajuste na percepção do mundo – e até de nós mesmos.

Uma quebra de sincronismo no relógio mental pode estar por trás de problemas de aprendizagem, distúrbios de linguagem, déficit de atenção e até, em casos mais extremos, representar a alteração no senso de julgamento do que é causa e o que é efeito – uma consequência que, para alguns pesquisadores, pode estar relacionada à esquizofrenia.

Vários estudos sugerem que percepção de ritmo de uma criança pequena – ou seja, seu senso de timing – é um forte indicativo de suas habilidades linguísticas. A dificuldade em perceber e acompanhar um ritmo, um sintoma comum da dislexia, pode ser avaliada em crianças de apenas três anos, apontando para a necessidade de estímulos que podem facilitar a aprendizagem e, mais tarde, a alfabetização.

J. J. Grandville

Recentemente, cientistas da Universidade de Evanston, em Illinois, dividiram crianças de três e quatro anos entre sincronizados e não sincronizados, com base nas capacidades que apresentaram em testes de ritmo com tambores. Em seguida, aplicaram uma série de atividades auditivas em que elas deveriam distinguir diferentes sílabas com e sem a interferência de outros sons. A conclusão foi que as crianças consideradas sincronizadas também apresentaram maior precisão na distinção das sílabas e em outras habilidades linguísticas, como a identificação de rimas.

Outro estudo, do Centro de Neurociências da Universidade de Cambridge, mostrou que crianças disléxicas geralmente precisam de um tempo maior para perceber a mudança de amplitude de um som. Os cientistas comprovaram que dificuldades rítmicas – não com relação ao tom, mas ao tempo – estão relacionadas ao déficit fonológico que caracteriza a dislexia. Com esses resultados em mãos, a conclusão foi óbvia: uma intervenção precoce que trabalhe a musicalidade, ritmo e sua relação com a língua não apenas pode corrigir a deficiência rítmica como pode atenuar ou até prevenir dificuldades de leitura.

O neurologista Gottfried Schlaug, da Harvard Medical School, em Boston, é outro grande defensor das intervenções musicais como prevenção e tratamento de diversos problemas, inclusive os de linguagem. Para ele, se identificado cedo o problema, pode-se intensificar estratégias que incluem jogos e brincadeiras com ritmos para melhorar essa percepção na fase de maior maleabilidade do cérebro.

A ideia não é nova. O programa Interative Metronome (Metrônomo Interativo) tem alcançado excelentes resultados, nos Estados Unidos, treinando o compasso interno no cérebro das crianças. A terapia é indicada não apenas para disléxicos como para portadores de diversas dificuldades que podem estar com um desajuste no timing de processamento ou de resposta ao estímulo. Em crianças diagnosticadas com transtorno de hiperatividade e déficit de atenção, por exemplo, acredita-se que esse tempo de resposta possa ser precipitado, o que explicaria a forma impulsiva de agir. Além de ajustar esse “relógio”, a terapia com ritmo e sons desenvolve habilidades psicomotoras – fundamentais para o aprendizado – e trabalha o foco e a integração sensorial, por meio de movimentos sincronizados.

Com base nesses dados é natural concluirmos que, num outro extremo, o cérebro dos músicos apresenta vantagens com relação ao senso de timing. Pensando nisso, David Eagleman decidiu fazer, em 2011, um experimento com bateristas profissionais. A conclusão foi a que esperava: sua precisão sensório motora é extraordinária, com uma diferença estatística grande com relação ao grupo controle.

Não que terapia envolvendo música seja algo novo: as batidas ritmadas sempre foram um componente essencial das cerimônias de curas entre povos antigos, por exemplo. Mas apenas recentemente a ciência vem conseguindo levar mais credibilidade para seus aspectos terapêuticos, valorizando seu papel na educação e na saúde mental, especialmente no tratamento de distúrbios que têm relação com o descompasso da orquestração neural.

 

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