Sem humor, perdemos o senso de realidade

Por Michele Müller

Por fugir do óbvio e apresentar novas e surpreendentes formas de interpretar um determinado tópico, o humor é uma expressão de criatividade. Como define o neurocientista Rex Jung, “o humor, por definição, é socialmente relevante e inesperado”.

Esse ato criativo tão fundamentalmente humano é nossa solução para enfrentar com mais leveza a consciência muitas vezes dolorida e temível da nossa condição de falíveis, limitados e mortais.

Sobre o humor como uma espécie de compensação ao fato de termos recebido o poder de perceber nossas falhas, Virgínia Woolf elabora, no ensaio O Valor do Riso (1905):

“O riso preserva o nosso senso de proporção; lembra-nos sempre que somos apenas humanos; que não há homem que seja herói completo ou inteiramente um vilão. Tão logo nos esquecemos de rir, veremos as coisas fora de proporção e perdemos nosso senso de realidade”.

 

John Marshall, 1819

A relação indissociável entre o cômico e o trágico foi abordada por Hermann Hesse em diversos ensaios. Em Die Nürnberger Reise (1926), ele coloca:

“Escrevam sobre o que quiserem, os assuntos e temas são para os humoristas apenas um pretexto. Na verdade, a matéria de todos é uma só: a incrível miséria e vulnerabilidade da vida humana e o eterno espanto diante do fato de que esta vida tão desgraçada seja, não obstante, tão bela e divertida”.

Leia também:

Virginia Woolf sobre a relação mente-corpo

Virginia Woolf contra rigidez e conformismo

Michele Müller

12 março 2017

O que sustenta uma amizade

Sem o exercício da tolerância e sem a força da presença, as relações se mantêm frágeis e as amizades, superficiais. Proximidade não se conquista sem a capacidade de

Michele Müller

6 março 2018

Sobre a beleza das palavras

“A cada dia sou surpreendido por alguma palavra”, confessou Oliver Sacks ao seu companheiro Bill Hayes, autor de The Insomniac City: New York, Oliver and Me – um

Powered by tnbstudio