Como manter crianças atentas e motivadas

Por Michele Müller

Exigir atenção a longos discursos é ineficaz. Educar deve ser um exercício constante de criatividade.

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Horace Castelli

Após analisar dados referentes a quase 510 mil crianças ao longo de uma década, pesquisadores do Instituto Norueguês de Saúde Pública concluíram que os mais novos da sala têm quase o dobro de chance de serem medicados com estimulantes se forem meninas e, se forem meninos, a probabilidade aumenta em cerca de 40%. Resultados semelhantes já foram colhidos em investigações realizadas na Alemanha, Canadá, Espanha e Israel, não deixando dúvidas: uma quantidade alarmante de crianças, no mundo todo, tem sua imaturidade avaliada como transtorno neurológico.

Se as estratégias utilizadas para ensinar as crianças pudessem ser avaliadas com a mesma precisão com que se cruzam dados de calendários e diagnósticos, sem dúvida encontraríamos um fator ainda mais fortemente relacionado aos problemas de atenção. Os maiores índices de alunos com dificuldades para se concentrar provavelmente proviriam de escolas que não incentivam ações criativas e priorizam a quantidade de conteúdo sobre a forma como são conduzidas as aulas. Muitos esforços são dirigidos para que as crianças se adaptem ao sistema educacional, quando o mais urgente é adaptar o sistema educacional a elas.

Poderíamos colocar em discussão disciplinas, grades horárias, quantidade e teor de conteúdo, arquitetura das escolas, métodos de ensino, sistemas de avaliação e outros tantos fatores que compõem a fórmula imprecisa de uma educação de qualidade. Encontramos variações de tudo isso com mais ou menos sucesso, sempre dentro de limites traçados por processos legais e burocráticos e, portanto, lentos. Mas se restringirmos a discussão a fatores mais tangíveis e não menos impactantes, dependentes apenas mudanças de perspectivas e posturas na hora de ensinar, já podemos alcançar grandes resultados em curto prazo.

Os ensinamentos que conseguimos transformar em brincadeira, com a participação ativa das crianças, são aprendidos com atenção e comprometimento, independentemente do nível de maturidade. As obrigações das quais elas escapam diariamente, para desespero dos pais e professores, são magicamente cumpridas quando transformadas em desafios. Mas para isso precisamos reinventar a forma como costumamos impor tarefas e ensinar.

Muitas vezes, temos que lançar disputas, inverter papéis, estabelecer limites de tempo, contar pontos, lançar adivinhas, criar charadas. Enfim, precisamos rever os hábitos desgastantes e pouco eficientes de exigir atenção aos longos discursos verbais e de repetir as ordens desobedecidas gritando. Ao invés disso, podemos inventar novas regras e maneiras de ensinar, num exercício constante de criatividade.

Crianças são naturalmente atraídas pelo inesperado. Adoram ser surpreendidas, são fascinadas pelo incomum e motivadas pela criatividade – que pode ser muito divertida, mas exige atitudes que nos tiram do conforto da rotina e de tudo o que é feito com o mínimo de esforço possível. Ser criativo implica abandonar velhos conceitos e investir mais energia em tarefas que realizamos automaticamente – mudanças que desafiam o comodismo ao qual nos apegamos na vida adulta e colocam em questão também a necessidade de avaliarmos nossas prioridades. Ou seja, a via para chegar a soluções criativas nunca é a mais fácil. Mas quem disse que educar é fácil?

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