Como surgem os insights e as grandes ideias?

Por Michele Müller

William Johns Hennessy (The Witch of Prague)
Soluções criativas raramente surgem em um momento de esforço. É nos momentos de pausa contemplativas, quando nos livramos dos repetidos pensamentos sobre questões não resolvidas, que damos chances para os insights surgirem.

 

Transitar por diferentes áreas do conhecimento nos garante a matéria-prima da criatividade: informações diversificadas e aparentemente desconexas que conseguimos combinar de forma única. Toda a solução original nasce de uma combinação de fontes e, portanto, de uma mente aberta a novos conhecimentos da forma mais indiscriminada possível.

Essa coleta de informações é necessária mas não suficiente para que a mente, como uma máquina de caça-níquel, faça uma série de combinações inconscientes até que, quando menos esperamos, acerta o jackpot. E uma solução inusitada surge como se nos atingisse, como se acontecesse conosco e não fosse resultado de esforço. Nós temos uma grande ideia – e não as formulamos.

Tanto é que na antiguidade acreditava-se que as pessoas eram escolhidas por entidades externas para executar trabalhos considerados geniais. Entendiam a criatividade como algo que vinha de fora para dentro, fora do nosso controle. Ideia sobre a qual a escritora Elizabeth Gilbert, autora de A Grande Magia, apresenta uma versão poética e, naturalmente, bastante criativa (em entrevista à Debbie Milman, Design Matters):

“Acredito que as ideias querem nascer; elas têm consciência e circulam pela Terra à procura de um ser humano para colaborar, para fazê-las nascer. (…) E para consegui ouvi-las você precisa ter suas prioridades definidas, precisa ter seus limites, precisa de tempo e energia para escutar a ideia quando ela vem sussurrar em seu ouvido – e isso é magia. E você precisa se aproximar dela como se aproxima do supernatural. Torna-se um servo desta relação”.

Como diamantes enterrados no fundo da mente, os insights dificilmente são revelados quando estamos concentrados em um problema, tentando compreender algo complexo ou com a mente imersa em ocupações e preocupações. Aparecem quando conseguimos tirar as complexidades da vida do meio do caminho; quando nos dedicamos a atividades que livram a mente do desgaste que a elaboração de pensamentos exigem.

As ideias costumam esperar para serem descobertas em um momento de descontração. Basta lembrar da cena do Newton descansando sob a macieira quando teve o insight sobre lei a gravidade. Manuscritos do cientista revelam que ponto de partida para a descoberta da lei da gravidade ocorreu, de fato, durante um estado contemplativo em seu quintal.

A história das invenções é repleta de exemplos semelhantes – como a forma como as famosas canetas estilo Bic foram criadas. Na década de 30, ocorreu a Laszlo Bíró, um jornalista de Budapest, que deveria existir uma ferramenta mais prática para escrever que as canetas-tinteiro, que viviam vazando. Ao observar as prensas cilíndricas das gráficas rolando sobre os papéis, imaginou um sistema parecido, mas em miniatura e com a possibilidade de percorrer todas as direções.

Quebrou a cabeça pensando em soluções. Até que um dia, enquanto caminhava na rua, viu crianças brincando com bolinhas de gude e reparou no caminho de água deixado por uma que rolou por uma poça d’água. Foi assim, em um momento de pausa e descontração, que teve o insight que levou à criação da primeira caneta esferográfica.

Para que se deparasse com a solução que tanto buscava, Bíró antes passou muito tempo pesquisando e refletindo – tanto antes quanto depois de ter tido uma ideia. Sem o esforço dedicado ao problema, seu cérebro não estaria preparado para fazer uma associação brilhante. Mas essa associação aconteceu durante um momento contemplativo.

As caminhadas pela rua, como a que o proporcionou a ele o encontro com a crianças brincando com as bolinhas, são famosos combustíveis para a criatividade. Elas nos incentivam a observar o mundo lá fora e tirar o foco dos próprios pensamentos. Como costumamos dispensar mais atenção ao novo, mudar de rota e buscar novos ambientes pode ser favorável a esse estado contemplativo. Grandes escritores relatam, com frequência, a importância das corridas e caminhadas ao ar livre para a formação das suas histórias.

Já Einstein costumava ter seus mais famosos insights durante pausas em que tocava violino. Ele visualizava uma solução quando não estava ativamente procurando e somente depois dedicava muita concentração para transformá-la em teoria. Tocar um instrumento (quando se é experiente), andar, correr, cuidar do jardim são atividades que mantêm a mente alerta e livre tanto do excesso de distrações, como do foco direcionado à resolução de um problema.

Ao afastar a mente dos diálogos interiores, afastamos também a ansiedade que os acompanha. E o stress é um dos principais inimigos da criatividade. Quando nos ocupamos com repetidos pensamentos sobre questões não resolvidas, prevendo as possibilidades que cada escolha pode trazer, fazendo planos ou mesmo tentando assimilar novas informações, não deixamos lugar para o insight se manifestar.

Os momentos em que o pensamento flui livremente também nos permitem uma visão mais abrangente das situações. Nessas pausas, a informação transita pelas áreas subconscientes do cérebro e ganha a chance de se associar a outras informações aparentemente desconexas, formando um produto original. Pode ser uma história, um ponto se vista diferente para um problema, uma nova forma de abordar os clientes, uma estratégia original de vendas. Seja qual for o produto, ele não surge não como um passe de mágica, mas como resultado de um processo subconsciente, que é revelado quando as preocupações lhes dão licença.

As ideias são como um desenho na janela, que só aparece quando o vidro é embaçado. O desenho está lá o tempo todo, mas é preciso do vapor para que ele se revele temporariamente. As pausas verdadeiras – sem celular, mídias sociais ou conversas interpessoais – são o vapor da mente. Por isso, a busca por momentos de introspecção deve ser ativa e diária quando se deseja uma vida mais criativa, quando se quer ouvir o sussurro da ideia, com a disposição para tornar-se seu servo e defensor.

 

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