Como se proteger contra mentiras e artimanhas que influenciam suas decisões no mundo virtual

Por Michele Müller

A capacidade de criar ferramentas para ganhar eficácia nas tarefas é um dos grandes diferenciais da espécie humana – um que nos permite expandir qualquer limite. Basta uma bicicleta para nos tirar da posição humilde que ocupamos no ranking de velocidade no reino animal. Steve Jobs, em um depoimento para a Biblioteca do Congresso (Library of Congress), em 1990, utilizou esse fato para manifestar seu entusiasmo pela tecnologia: “um computador, para mim, é a ferramenta mais formidável que já criamos – é o equivalente a uma bicicleta para a mente”.

Quando ele fez essa analogia, há 30 anos, tanto um quanto outro eram utilizados conforme o desejo e a necessidade de quem os manipulava. Sobre as bicicletas, continuamos tendo pleno domínio. Mas com os computadores, a ordem foi invertida.

Criamos uma relação de dependência com as máquinas que jamais teríamos com uma bicicleta, ao termos transformado essas ferramentas em extensores da mente, dos quais não mais conseguimos nos distanciar por um dia sequer. Mas o lado mais perigoso dessa relação é bem menos evidente: embora tenhamos a impressão de estarmos no comando das próprias escolhas, isso está longe de ser verdade, especialmente no mundo virtual. Atrás dos eletrônicos, grande parte das nossas ações são guiadas por artimanhas que atuam em nível subconsciente para estender o tempo de uso das telas e atrair a nossa atenção, cada vez mais concorrida e limitada.

Passamos a seguir, obedientemente, os propósitos das máquinas, ou melhor, das corporações que as tornam complexas – neurônios do córtex pré-frontal do grande cérebro da tecnologia. As notificações não são vermelhas por acaso; o feed do Facebook não se organiza de forma aleatória, nem segue uma rígida ordem cronológica; os vídeos que assiste no Youtube, ou a maioria deles, não foram ativamente buscados e ou selecionados por você.

Atrás de cada aplicativo há milhares de especialistas arquitetando formas de te manter ativo e certo de que está agindo de forma racional. Como mágicos, conhecem muito bem a mente humana e sabem fazer o público escolher uma determinada carta e jurar que a escolha foi livre. Pois justamente por conhecer muito bem as armadilhas que a mente humana cai facilmente que um conhecedor da magia foi parar na Google com a função de apontar caminhos éticos para a tecnologia.

Especialista em persuasão e já chamado de “a consciência de Silicon Valley”, Tristan Harris já ajudou essa e outras grandes empresas do setor a identificar e desfazer truques manipulativos que pudessem prejudicar os usuários. Seu trabalho, que quando era garoto era de criar ilusões, passou a ser desmanchá-las – uma espécie de magia ao contrário, que muito tem a revelar sobre irracionalidade humana.

“O que aprendemos com a magia é que existem coisas que funcionam com todas as mentes, em um nível subconsciente. Você nem precisa entrar no artigo para ser influenciado por fake news. O fato de aparecerem repetidamente no seu feed de notícias cria associações no cérebro que fazem parecer verdade”, explica Harris em entrevista a Helen Lewis no fórum internacional de debates Intelligence Squared.

Mentiras podem ser sedutoras, atrair a atenção de muitos e garantir mais tempo de interação. “A vulnerabilidade da mente é explorada pela tecnologia, que está inclinada na direção do sensacionalismo, de conspirações e radicalismo, o que traz reais consequências”, alerta.

O comprometimento com a ética e a verdade, antes base na qual os veículos de notícias construíam uma valiosa reputação, desassociou-se das principais fontes de informação na disputa por cliques, likes, comentários e por minutos ou segundos da atenção do consumidor. Ficou mais difícil selecionar a informação e se proteger contra mentiras e mensagens subliminares.

Antes até poderíamos julgar o conteúdo pela capa, mas hoje essa máxima não vale mais. A informação falsa e tendenciosa pode vir muito bem disfarçada e em uma quantidade que exige das pessoas grande capacidade de análise; ou seja, para nos proteger das influências ocultas do universo virtual, precisamos mais que nunca desenvolver o pensamento crítico – um conjunto de habilidades raramente trabalhadas pela educação formal e que parte do autoquestionamento.

O historiador Yuval Noah Harari, autor de Sapiens e do recém-lançado 21 Lições para o Século 21 (Cia das Letras), lembra que um dos ensinamentos mais antigos da humanidade – “conheça-te a ti mesmo” – nunca foi tão necessário. Afinal, explica, hoje temos uma forte competição: de lojas virtuais aos partidos e movimentos políticos, todos estão tentando nos hackear.

“Se nos dias de Sócrates ou Buda você não fizesse o esforço para conhecer melhor seus padrões, hábitos e fraquezas, você seria simplesmente alguém que não se conhecia, mas isso não afetaria a humanidade”, explica a Michael Shermer para o Science Salon da Revista Skeptic. Hoje, a falta de autoconsciência torna qualquer pessoa em alvo fácil de manipulações que podem trazer alterações drásticas no fundamento da sociedade, com consequências econômicas, sociais e culturais.

Quem não sabe quais são e de onde vêm suas fraquezas e preconceitos, alerta Harari, não consegue se defender quando eles são usados para direcionar seu comportamento:

“Com a tecnologia, os argumentos sobre o livre arbítrio deixaram de pertencer ao campo filosófico e passaram a pertencer ao mundo prático. Antigamente não tínhamos a força tecnológica e o conhecimento necessário para hackear as pessoas, como agora temos. Eu diria que essa é a maior ameaça, em longo prazo, à democracia”.

 

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