Como nascem os preconceitos, como morre a empatia

Por Michele Müller

A cena de alguém sofrendo – mesmo sendo um desconhecido em um filme de ficção – provoca uma ativação do network relacionado à dor em nosso cérebro. Se nossa espécie evoluiu para sentir a dor do outro, como permite a banalização da violência em determinadas situações e momentos da história? Permite porque, primeiro, desumaniza o outro. E desumaniza se diferenciando dele, de alguma forma.

Para testar se a resposta empática à dor de alguém apresenta variação conforme nosso julgamento sobre essa pessoa, o neurocientista David Eagleman analisou a atividade neural dos participantes de um estudo em que foram apresentadas imagens de mãos, selecionadas de forma aleatória, sendo furadas. Cada mão trazia um rótulo: cristão, judeu, muçulmano, ateu, hindu e cientologista. Bastou uma única palavra para que os participantes identificassem, mesmo que inconscientemente, quem era de sua tribo e se tornassem menos sensíveis à dor dos demais. A diferença foi observada até mesmo entre ateus.

Essas pessoas não estão necessariamente conscientes de seu preconceito. E a identificação de quem é de sua tribo ou é de fora ocorre a partir de uma série de atributos que podem passar longe de crenças religiosas. A tendência a buscar o amparo e aceitação de um grupo e de se distanciar do sofrimento dos que são “diferentes” pode ser construída ou desconstruída pela cultura e pelo meio social. E de uma forma surpreendentemente rápida.

Vejam o caso da lição que a professora Jane Elliott de uma cidadezinha de Iowa, nos Estados Unidos, levou aos seus alunos no final da década de 60, logo após o assassinato de Martin Luther King: ela determinou que crianças de olhos castanhos, a partir daquele dia, não teriam mais o direito de usar os bebedouros, teriam que usar uma faixa branca no pescoço e não poderiam mais brincar com os colegas de olhos azuis. Não demorou para que crianças de olhos claros, sentindo-se superiores e apoiadas por uma autoridade, começassem a destratar as do outro grupo, com as quais brincavam minutos antes.

No dia seguinte, a professora pediu que os de olhos castanhos retirassem as faixas e colocassem nas crianças de olhos azuis, que perderiam o direito de usar os brinquedos do parque e teriam cinco minutos a menos de recreio. Agora era a vez daqueles com olhos claros encolherem-se ao perceber que estavam de fora do grupo dominante e que rejeição provoca dor e revolta.

As crianças haviam dito à professora que podiam entender a injustiça vivida por outros. Com o exercício de troca de perspectiva, ela mostrou aos alunos que entender é diferente de sentir na pele e que empatia é algo que pode ser exercitado.

Se a professora realmente tratasse com diferença um determinado grupo ajudaria a moldar mentes preconceituosas. Num exercício contínuo de desumanização, daria a eles o direito de agir com superioridade. Afinal, autoridades servem como exemplo de conduta e por isso devem ter consciência da sua responsabilidade sobre o comportamento dos outros; devem inspirar o respeito às diferenças, a postura ética, o autocontrole, a mudança de perspectiva e o olhar para o coletivo – capacidades que não são inatas, mas aprendidas muitas vezes a duras penas, nas interações com pessoas de diferentes costumes, idades e ideologias. Quando essas virtudes não estão bem construídas, mais vulnerável se fica às influências de uma autoridade e de um grupo; mais se busca definições, separações e formas de mostrar sua suposta supremacia; mais facilmente se perde a empatia pelos “de fora”.

As atitudes dos grupos ao ganharem o direito de julgar um ao outro não seriam diferentes se a sala de aula de Iowa fosse composta por adultos. É possível que fossem piores, como mostrou um dos experimentos comportamentais mais impactantes da psicologia, realizado na década de 70 com estudantes de Stanford. Conduzido por Philip Zimbardo, o estudo teve o objetivo de analisar os efeitos psicológicos do ganho ou da perda de poder. Para isso, simulou um ambiente carcerário e dividiu os participantes entre guardas e prisioneiros.

O estudo, que estava previsto para ocorrer ao longo de duas semanas, teve que ser interrompido em seis dias, tamanha a brutalidade que muitos supostos guardas tratavam seus colegas. Os prisioneiros, de acordo com o estudo, logo mostraram resignação com relação ao seu papel degradante naquele microcosmo social. Os poucos que se revoltavam contra os abusos de autoridade eram julgados pelos próprios colegas. Assim como as crianças de Iowa, começaram a maltratar outras pessoas logo que sentiram que, de certa forma, tinham permissão para isso.

Essas tendências perigosas de comportamento também foram investigadas pelo psicólogo Stanley Milgram. Na sua experiência mais famosa, constatou que, quando incentivadas por uma autoridade, as pessoas, mesmo relutantes, são capazes de infligir nos outros sofrimentos brutais. Sem considerar que não estavam sendo obrigados, e sim comandados, os participantes agiram como se a responsabilidade pelos atos não eram deles. Eram apenas instrumentos; estavam apenas seguindo ordens.

Essa transferência de responsabilidade explica, segundo Milgram, atrocidades cometidas por pessoas comuns em períodos de guerra. Mostra também o lado perigoso da obediência e resignação e a fragilidade dos princípios éticos que norteiam nossos atos em inúmeras outras situações.

São muitos os meios de induzir a desumanização e de permitir que preconceitos sejam construídos, reforçados e manifestados. A única proteção contra essas influências é a educação voltada ao desenvolvimento da autoconsciência e do pensamento crítico. Isso se consegue quando se luta por um estado verdadeiramente laico, que garanta às escolas o ensino da ética e da filosofia, que abra espaço para mais questionamentos (especialmente autoquestionamentos) e menos convicções.

 

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2 Respostas para “Como nascem os preconceitos, como morre a empatia”

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