O verdadeiro significado de interdisciplinaridade  

Por Michele Müller

Quando pequena, desenrosquei o corpo de uma caneta e descobri que dava para ver o quanto havia de tinta no caninho. Mas o que parecia ainda mais fascinante era a molinha que havia ali dentro. Como qualquer criança curiosa, apertei, testei, e brinquei, até a peça desaparecer. Quando tentei montar novamente a caneta, percebi o quanto ela fazia falta. O objeto estava estragado. Aquelas partes todas, na falta de uma, para nada serviam.

Essa experiência é um ótimo retrato do processo de aquisição de conhecimento: para entender como funciona um mecanismo, é necessário desmontar o sistema e analisar o funcionamento de cada parte. Toda a descoberta funciona dessa forma. O problema é que temos a tendência de continuar trabalhando com as peças isoladamente, até esquecermos que são apenas peças; que retiradas do conjunto não nos esclarecem muito sobre o mecanismo.

Não apenas segmentamos o conhecimento, como costumamos eleger partes como as principais ou mais esclarecedoras sobre como funciona toda a engrenagem. Essa tendência sempre acaba revelando uma limitação insustentável – seja qual for o maquinário que desmontamos.

Exemplos disso não faltam: durante muito tempo, tentamos dividir o cérebro em partes com funções muito bem definidas e enclausuradas – hoje sabemos que todas as regiões do órgão operam de forma complementar e integrada. Qualquer pessoa que escape à tendência da segmentação logo conclui que a genética e o ambiente, quando analisados isoladamente, raramente fornecem repostas completas. Também não podemos seguir o caminho da ciência sem cruzar com o da filosofia; abordar a mente de forma isolada do corpo; ou falar de aprendizagem sem entrar no campo das emoções, percepções e das interações sociais.

Ainda assim, continuamos a buscar respostas simples e exatas na compartimentação das ideias. Para escapar das incertezas geradas por mecanismos complexos insistimos no famoso Erro de Descartes (que defendia o dualismo mente/corpo), em separar, rotular, dividir de forma definida o certo e o errado, o normal e o anormal – como crianças tentando achar uma finalidade para a molinha sem perceber que, fora da caneta, ela perde seu valor.

A educação tradicional reflete nitidamente a tendência da segmentação, com a criação de disciplinas que se organizam entre “mais e menos importantes” e costumam ser apresentadas de forma desconexa e delimitada. Alunos se formam sem capacidade de enxergar cenários amplos, mas muito bem treinados em escolher especialidades.

Para chegarmos mais perto da realidade, com todas as suas incertezas e contradições, é necessário partir de uma visão interdisciplinar e não se intimidar diante dos inúmeros ângulos com que uma mesma situação pode ser interpretada. Isso não se garante com trabalho conjunto em torno de um mesmo tema, sendo cada um responsável por conhecer ou contribuir com uma determinada parte. Interdisciplinaridade significa saber montar a caneta e procurar conhecer a relação entre suas peças. O físico italiano Carlo Rovelli toca nesse assunto quando diz que “entendemos o mundo melhor não ao conhecermos cada coisa, mas a interação entre as coisas”. Isso vale para todas as áreas – inclusive para o entendimento de nós mesmos, uma vez que – nas palavras dele – “somos uma rede de interações com o mundo à nossa volta”.

Ter visão interdisciplinar significa reconhecer que todas as questões complexas são multifatoriais e saber buscar informações sobre os fatores envolvidos. É necessário termos especialistas, mas bons profissionais – seja na ciência, na educação ou em qualquer área – olham muito além da sua especialidade em busca de relações entre os diferentes conhecimentos.

Isso faz com que se questionem constantemente e questionem também as doutrinas, os métodos e os sistemas vigentes para, assim, buscar respostas mais abrangentes para os problemas que precisam resolver. É assim que surgem as ideias, métodos e projetos novos e ousados.

Nenhuma inovação, em nenhum campo do conhecimento, acontece sem uma fusão de informações trazidas de áreas que, muitas vezes, aparentam estar distantes ou desconexas. Ideias originais jamais ocorrem quando escolhemos seguir uma única linha de conhecimento e de pensamento, sem olhar para os lados, sem acessar os incontáveis hiperlinks contidos nessa linha. Não podemos evoluir sem permitir uma troca entre diferentes especialidades, com a mente aberta para receber e compartilhar informações, sem medo de ter sua área “invadida” ou de invadir as outras em busca de conhecimentos mais amplos.

Já derrubamos todas as barreiras para o acesso à informação. Agora temos que focar em construir um sistema educacional com base na interdisciplinaridade, para que possamos formar pessoas questionadoras, autodidatas, com visão ampla e flexível de mundo, com curiosidade e disposição para desconstruir delimitações e para enxergar todas as faces de uma informação de forma autônoma e crítica, até desapegarem das convicções, até perderem o medo do incerto.

 

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