A plasticidade da mente e a mudança de hábitos, segundo Sêneca 

Por Michele Müller

Do livro Crabbes Historical Dictionary, 1825.

Sêneca não conhecia o funcionamento do cérebro, mas conhecia os movimentos do que chamava de “alma” humana. Não falava em termos de neurônios e de neurotransmissores, mas também não se referia a algo que se eterniza fora do corpo. O uso desse conceito decorre da falta de um vocabulário que retrate a complexidade de um sistema que, até hoje, não pode ser compreendido em um nível puramente biológico.

O fato é que muitas das informações que usamos como guia para compreender a mente e o comportamento, com a confiança de terem surgido das certezas da ciência recente, são mais confirmações que descobertas. A filosofia antiga traz inúmeros insights sobre como o cérebro funciona, validados por protocolos modernos.

Se hoje nos maravilhamos com a plasticidade cerebral e nossa enorme capacidade de adaptação, aprendizagem e mudança, Sêneca já abordava a fascinante maleabilidade da “alma” em uma reflexão feita há mais de dois milênios, em uma de suas Cartas a Lucílio. Ao compará-la a um líquido, nos confortava com a possibilidade de trocarmos hábitos prejudiciais, mesmo os mais cristalizados, por virtudes, em qualquer fase da vida. Afinal, o líquido se molda a qualquer recipiente, o cérebro a qualquer ambiente:

“A sabedoria só se obtém pelo esforço. Para dizer a verdade, nem sequer é necessário grande esforço se, como disse, começarmos a formar e a corrigir a nossa alma antes que as más tendências se cristalizem. Mas mesmo já empedernidas, nem assim eu desespero: com esforço persistente, com cuidados aturados e intensos, todas as más tendências serão vencidas. Podemos aprumar toros de madeira, por mais tortos que estejam; por meio de calor é possível endireitar pranchas curvas e adaptar sua forma natural às  nossas conveniências. Com muito mais facilidade se pode dar forma à alma, essa entidade flexível, mais maleável que qualquer líquido”.

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