Perdoar não é um ato de esquecimento, mas de compaixão

Por Michele Müller

Edward Robert Hughes

Em Portugal, a parte do corpo machucada está “magoada”. Aprendi isso na prática, quando caí de uma escada, torci o pé e fui acudida por uma senhora que perguntou se ele estava magoado. A escadaria do metrô passou a representar perigo e levei muito tempo para voltar a descê-la correndo. 

No Brasil usamos mágoa somente para aflições psicológicas, mas emprestamos outras palavras do universo fisiológico, como feridas, machucados ou cicatrizes, para descrever a dor no coração. Afinal, o processo é o mesmo: existe a dor, a busca por alívio, a proteção, o medo e a cura. É desta última etapa que nasce o perdão. Com o pé doendo, ainda muito magoado, forçar-se a retirar a mão do corrimão e encarar os degraus com confiança seria um desrespeito ao próprio corpo.

Estar disposto a perdoar, nem que seja pelo próprio bem-estar, parece simples quando você acredita que é uma boa pessoa, compreensiva e empática. Até que é ferido de uma forma estranhamente profunda e precisa ressignificar a palavra perdão. Não se trata mais de uma decisão. Esquecer ou passar por cima também não são possibilidades e, se fossem, não seriam escolhas sensatas: a mágoa e sua relação com a verdade são estradas sem retorno e você sabe que precisa atravessá-las e deixar se transformar por elas. E, da mesma forma como obedece às necessidades do corpo enfermo, deve se segurar no corrimão, andar devagar e cuidar da parte magoada por respeito a si próprio.

Nesse processo, não há muito espaço para empatia. Em um nível biológico básico, um organismo intimidado se contrai, se fecha, em uma reação de fuga ou luta que é automática e egocêntrica: diante da ameaça, o sistema nervoso faz uma série de movimentos inconscientes que protegem – e isso não inclui entender como o outro está se sentindo.

Nesta fase, lembra a psicóloga budista Tara Brach, em uma meditação sobre o tema, simplesmente não é possível enxergar o cenário amplo. “A capacidade de empatia é “desligada” por um tempo. E é muito importante reconhecer que existe um período em que não se deve mesmo ser compassível: deve-se cuidar de si, pois ainda não há recursos para perdoar”.

A reação límbica, ela lembra, tem sua própria inteligência, mas depois de cumprir sua função, precisa dar espaço para que se possa continuar evoluindo. Cuidar de si, portanto, não significa se entregar à desesperança e à inatividade: o corpo magoado precisa ser reeducado a partir do movimento, por mais incômodo que seja; o coração segue a mesma indicação e, à medida que se fortalece, anda em direção ao perdão. Ou à compaixão, se a palavra parecer mais adequada, uma vez que é resultado da capacidade de olhar para o outro, de olhar por cima da própria dor, sem a necessidade de esquecê-la, conforme coloca o filósofo David Whyte no livro “Consolações”

“É a parte ferida, marcada e jamais ignorada que faz do perdão um ato não de esquecimento, mas de compaixão. Perdoar é assumir uma identidade maior que a da pessoa que foi ferida, é amadurecer e poder abraçar não apenas a parte afligida do próprio ser, como as memórias cauterizadas pelo golpe original e, de forma virtuosa, estender a compreensividade àquele que o entregou”.  

O perdão, complementa, não afasta a ferida, mas leva a uma releitura da sua relação com ela, colocando-lhe mais próximo à fonte da dor. Estranhamente, ele nunca surge da parte que estava atingida. “Essa parte é possível que nunca possa ou realmente não deva esquecer, pois, assim como os fundamentos do sistema imunológico do organismo, nossas defesas psicológicas precisam ter memória e se organizar contra futuros ataques”.

Essa organização se soma à sua identidade, te entrega novas perspectivas, novas formas de sentir, se relacionar, se entender e entender os outros. Nessas transformações, muito se ganha, muito se perde. Mas todos os caminhos que te levam a uma versão fortalecida de si mesmo passam pelo perdão.

 

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