Quem disse que errar é ruim?

Por Michele Müller

Podemos enxergá-los como ameaças a serem evitadas ou como oportunidades: a forma como lidamos com os erros está diretamente relacionada à aprendizagem.

autor desconhecido

 

Quem quiser entender como o cérebro aprende, basta dar a um bebê um desses brinquedos que trazem certos desafios – como encaixar, apertar, abrir e fechar – e observá-lo. Ele vai tentar, vai errar, vai tentar de novo e possivelmente, errar muitas vezes até dominar os segredos daquele objeto. Vai repetir os movimentos certos e sentir novamente aquele prazer momentâneo da descoberta antes de partir para um novo desafio; afinal, acertar sempre – e bebês, os mestres da aprendizagem, sabem isso muito bem – não tem graça.

Não é nem preciso conviver com bebês para entender que cair, derrubar e errar não são apenas ações aceitáveis, como são etapas necessárias dessa aventura da descoberta de como o mundo e eles mesmos funcionam. Por isso aplaudimos e incentivamos cada ato de coragem, cada tentativa falha dos corajosos exploradores em direção ao desenvolvimento.

Muitas coisas eles descobrem pegando, errando, repetindo e insistindo por conta própria e muitas outras aprendem ao observar os cuidadores e ao interagir com eles. Imagine se nessas interações fossem repreendidos cada vez que errassem a casinha onde se encaixa a peça, cada vez que se desequilibrassem e caíssem ou cada vez que errassem a pronúncia as palavras que estão começando a oralizar. Punir um bebê por um erro seria um ato desajuizado.

A partir de quando, então, isso se torna aceitável?

A verdade é que nunca deveria ser. Nosso cérebro continua dependendo dos erros para aprender. Enxergá-los como algo a ser temido e evitado é, em qualquer fase da vida e qualquer idade, frear a aprendizagem. São os erros de curso que nos fazer apagar certas rotas e reforçar outras na construção do mapa mental do mundo externo e do interno. A aprendizagem, afinal (segundo o conceito mais direto fornecido pela neurociência), é sempre um erro de predição. O cérebro escolhe um caminho, o resultado não é o esperado, então ele imediatamente ajusta suas previsões futuras com base em uma nova informação. Esse processo de sinalização de que algo deu errado ativa particularmente uma região denominada córtex pré-frontal medial e demanda atenção seletiva, fundamental para a aprendizagem e a plasticidade cerebral.

Quanto mais erramos, mais aprendemos, mais maleável o cérebro se mantém, em qualquer idade. No entanto, as crianças começam a perder a coragem de arriscar à medida que são levadas a associar o erro a sentimentos de fracasso e vergonha. E são esses sentimentos que acabam moldando a história que constróem sobre si mesmas, partindo de um conceito rígido de inteligência e das próprias capacidades – uma rigidez que tolhe seu potencial de aprendizagem, sua coragem e sua criatividade.

A forma de lidar e enxergar os erros separa as pessoas em duas categorias, que a pesquisadora em Psicologia da Universidade de Standford, Carol Dwek, classifica como as de mentalidade flexível e de mentalidade rígida. Depois de conduzir uma série de estudos a partir dessa divisão, muitos replicados por outros pesquisadores, concluiu que aqueles que acreditam que talentos são desenvolvidos alcançam melhores resultados que os que têm uma visão mais rígida do conceito de inteligência. Isso ocorre fundamentalmente porque, para os primeiros, erros são oportunidades para aprendemos. Já os que têm uma visão mais inflexível sobre suas próprias capacidades enxergam erros como ameaças.

O monitoramento do cérebro ao engajar em tarefas com alta probabilidade de erros aponta uma maior alocação da atenção às falhas em indivíduos que, de acordo com avaliações anteriores, encaixam-se no perfil mais flexível de mindset. Como consequência dessa intensificação da atividade neural em determinadas áreas relacionadas ao automonitoramento cognitivo, eles alcançaram melhor desempenho nas tarefas avaliativas, quando reaplicadas.

Crescer rodeado de adultos declaradamente perfeccionistas certamente não ajuda a desenvolver uma relação saudável com o erro. Mas a maior fonte do problema não está nas situações mais evidentes. Está nas pequenas e diárias  demonstrações de intolerância aos erros, próprios e dos outros, observados e reproduzidos pelas crianças. Está na atribuição de importância extrema às notas, sobrepondo-as ao esforço e ao processo de aprendizagem.

Conforme ensina a britânica Jo Boaler, referência mundial em técnicas eficazes de aprendizagem de matemática, as crianças precisam ser lembradas, diariamente, que o erro “faz o cérebro crescer” – uma simplificação das constatações de que há uma aumento de atividade e de conectividade neural como resultado das tentativas e erros.

Ela investiga, entre outros temas, a melhoria no desempenho dos estudantes quando percebem o ambiente onde aprendem como “erro livre”. Os resultados são sempre, como podemos esperar, positivos. Afinal, crianças gostam de desafios e quando os evitam é porque criaram o medo de errar, de serem julgadas por dizer “besteira” ou fazer uma pergunta boba. Quando se sentem livres para tentar e errar à vontade, fazem mais perguntas, arriscam muito mais, aceitam mais desafios e, logicamente, aprendem mais.

A aprendizagem, conforme apontado em inúmeras pesquisas sobre como o cérebro processa e retém as novas informações, é muito mais eficaz quando existe tentativa, esforço e dúvidas no lugar da entrega de explicações prontas. E todos esses elementos obrigatoriamente levam a inúmeros erros.

E como deve ser um ambiente mais encorajador?

Primeiramente, deve ser comandando por alguém que não elogia apenas os acertos e sim as tentativas, jamais fazendo cara triste nas que não dão certo; que estimula, de todas as formas possíveis, a formação de perguntas e que, antes de mostrar como se faz, leva o aluno a pensar, a buscar a resposta sozinho ou com colegas.

Para desconstruir o medo de errar é preciso com frequência tirar o foco das soluções e mostrar erros e exemplos errados, compará-los às formas corretas, falar sobre eles, mostrar o quanto são comuns. O adulto que comanda um ambiente encorajador também erra e não esconde isso. Também sabe dizer, sem embaraço, “eu não sei” quando de fato não tem a resposta.

Nas representações mitológicas de divindades, figuras poderosas e supostamente oniscientes cometem os mais inimagináveis erros – e sem eles não haveria história, nem ensinamentos; haveria talvez uma ideia abstrata, intimidadora e pouco compreensível de perfeição. E se os grandes acertos, as “bolas dentro” da vida real, dominam as histórias do mundo da ciência, é por mera economia de tempo (necessária para darmos conta do vasto conteúdo acadêmico) e praticidade: as histórias dos erros que abriram os caminhos para as grandes descobertas seriam infinitamente mais numerosas.

Que o diga Thomas Edison, que falhou em cerca de mil tentativas antes de finalmente conseguir fazer uma lâmpada funcionar, sem contar suas inúmeras outras invenções fracassadas. Fracasso, mesmo? Sua grande genialidade está no fato de que ele jamais enxergou dessa forma. “Eu não fracassei. Aprendi milhares de formas diferentes de como não fazer as coisas”, teria dito ele a um jornalista ao ser questionado por seus erros.

 (Dweck, 1999; Utman, 1997).

(Steinhauser & Yeung, 2010).

Michele Müller

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