O que conectoma humano revela sobre a relação entre inteligência e soft skills

Por Michele Müller

No cérebro, os atributos considerados positivos, como inteligência, autocontrole, flexibilidade e habilidades sociais estão todos correlacionados e podem ser atribuídos à maior interatividade entre as diferentes regiões – o que nos leva a fazer melhores escolhas.

White Matter Fibers – da galeria de imagens do projeto Conectoma

Estudos derivados do projeto conectoma (human connectome project) verificaram a relação do bem-estar com a integração entre partes do cérebro e concluíram que a interconectividade do cérebro é o estado neural que melhor indica saúde mental (Smith, 2015) e atributos como inteligência, memória e flexibilidade.

O projeto surgiu de esforços internacionais com o objetivo de mapear a conectividade do cérebro a partir do escaneamento de networks de 1200 adultos, feito por meio de diversas técnicas de neuroimagem. Foram mapeadas conectividades em 268 regiões do cérebro. Essas imagens são acompanhadas de informações referentes a 280 tópicos – como hábitos e comportamentos – de cada um dos participantes.

De posse desses dados, os pesquisadores realizaram uma ampla análise da relação dessas informações com a conectividade do cérebro. Descobriram um padrão comum entre pessoas com variáveis mais positivas – como nível de educação, flexibilidade, resistência física e bom desempenho em testes de memória e de QI: seus cérebros apresentam maior conectividade que o de pessoas com hábitos pouco saudáveis e comportamentos mais negativos, como maior nível de agressividade.

Outro estudo a partir de conectomas, realizado por pesquisadores da Universidade de Yale (Finn, Emily et. al) concluiu que quanto mais as áreas diferentes do cérebro conversam entre si, mais rapidamente a informação é processada, o que possibilita que sejam feitas melhores predições e o indivíduo avalie melhor cada situação. Isso significa que, em um cérebro mais interconectado, a informação aprendida flui por diversas áreas, o que nos leva a fazer melhores escolhas em todas as áreas da vida – da resolução de um problema complexo à forma como nos alimentamos.

A inteligência fluida, de acordo com os pesquisadores, está especialmente relacionada à conectividade entre os lobos frontal e parietal – regiões mais recentes na escala evolutiva, que apresentam maior variabilidade entre as pessoas e networks mais flexíveis, que variam de acordo com a tarefa. Quanto mais fortemente conectadas essas áreas, mais um indivíduo tem chances de se sair bem em testes de raciocínio abstrato.

Além de ser revelador por si, reafirmando a hipótese da biologia interpessoal de que a integração entre as partes do cérebro está associada a melhores relacionamentos, decisões mais inteligentes e bem-estar físico e mental, o projeto leva a outra importante descoberta: a de que esses fatores todos estão correlacionados por meio de um padrão característico de interconectividade. Assim, a maior integração seria causa ou consequência – ou, possivelmente, ambos – da evidente relação (ao menos de uma forma geral, levando em consideração o conjunto dos aspectos avaliados em pesquisas do projeto conectoma) entre fatores comportamentais e aspectos gerais da cognição.

Esses estudos mostram que, diferentemente do que se acreditou por muito tempo, a inteligência geral não pode ser relacionada a uma região específica do cérebro e sim à interação entre diferentes regiões. Outra revelação é que, conforme o mapa neural, não há como separar de forma definida as habilidades relacionadas à inteligência daquelas que chamamos de soft skills, mais difíceis de avaliar em testes padrão, mas fundamentalmente relacionadas à qualidade de vida e realização pessoal e profissional.

Logicamente, há diferenças individuais – a exemplo das pessoas que apresentam altíssimas habilidades em uma determinada área e dificuldades em outras, o que é comum entre aqueles que se encontram no espectro autista, por exemplo. Mas, de uma forma geral, os diferentes tipos de inteligência não se sepram de forma definida e todos se desenvolvem a partir de erros de previsão, que com atenção e memória levam à aprendizagem de informações que serão utilizadas nas escolhas futuras.

 

Referências

* Smith, Stephen. Et al., A positive-negative mode of population covariation links brain connectivity, demographics and behavior. Nature Neuroscience, n 18, 2015

** Finn, Emily et. Al., Functional connectome fingerprinting: identifying individuals using patterns of brain connectivity. Nature Neurosciencevolume 18, pg1664–1671, 2015.

 

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