A energia flui para onde está a atenção

Por Michele Müller

A atenção é nosso recurso cognitivo mais básico. É a partir dela que a mente monitora o fluxo de informações e é capaz de alterar a estrutura do cérebro.

Arquitetura do cérebro. foto: human connector project

O universo dos transtornos mentais é altamente controverso. Se você levar as mesmas queixas a dois profissionais da saúde mental, é bem possível que receba dois – ou mais – diagnósticos diferentes. Muitos se atêm a sintomas listados no manual de diagnósticos, sem levar em consideração fatores culturais, sociais e fisiológicos.

O fato é que a mente é relacional – dependente do dos outros e do mundo externo – e corporizada. Assim, não há como analisá-la ou compreendê-la de forma isolada do ambiente, da cultura e do próprio corpo. Processos fisiológicos, sociais e mentais ocorrem de forma entrelaçada, influenciando-se mutuamente.

Na perspectiva da Biologia Interpessoal, lançada pelo psiquiatra americano Dan Siegel, autor de uma série de livros em neurociências, a integração desses universos é a base da saúde mental. Ao examinar os distúrbios apresentados no DSM (manual de diagnósticos psiquiátricos), Siegel chegou à conclusão de que todos, sem exceção, estão relacionados ao caos, à rigidez ou a ambos.

O fato de que a cada edição o manual é engrossado com novos distúrbios, somado a questões polêmicas geradas por determinados diagnósticos e à frequência com que se chega a comorbidades (pois o comportamento não se encaixa em nenhum transtorno específico e o paciente acaba saindo do consultório com mais de um diagnóstico) são sinais de que a categorização pode levar a resultados inconsistentes e, não raramente, questionáveis. A partir do reconhecimento do cérebro como parte integrante do ambiente com o qual interage, essa abordagem se opõe à tendência de categorizar de forma tão definida os problemas que atingem a mente.

Os estados de caos ou rigidez seriam resultado de uma desintegração que impede a informação de fluir apropriadamente pelos circuitos e entre as pessoas. Ocorrem quando as regiões cerebrais não trabalham de forma integrada – como uma orquestra em que nenhum instrumento se faz perceber isoladamente – e quando diferentes aspectos das relações sociais não se encontram em coerência. Uma mente integrada, em que a orquestra está afinada, é flexível, estável e resiliente.

Essa visão é consistente com estudos derivados do projeto conectoma (human connectome project), que verificou a relação do bem-estar com a integração entre partes do cérebro e concluiu que a interconectividade do cérebro é o estado neural que melhor indica saúde mental (Smith, 2015) e outras variáveis positivas.

Quanto mais interconectada a mente – ou seja, quanto mais a informação flui entre as diferentes partes do cérebro – melhores os resultados alcançados em testes de inteligência, memória, flexibilidade, saúde e satisfação pessoal. Todas essas variáveis, portanto, estão correlacionadas e podem ser preditas a partir de imagens do mapa neural do cérebro.

O conectoma humano pode ser comparado a uma impressão digital neurológica, mas com um diferencial fundamental: não é uma assinatura inalterável e sim um ´padrão em contante transformação a partir de estímulos.

Nas palavras de Siegel, a mente é uma entidade que controla e altera o fluxo de energia e informação – um mecanismo autorregulador capaz de modificar não apenas o funcionamento como a própria estrutura do cérebro. Essa alteração, portanto, seria resultado do monitoramento do fluxo de informações, que, por sua vez, depende do nosso recurso cognitivo mais básico e, ao mesmo tempo, por vezes tão difícil de dominar: a atenção.

No cérebro, a energia flui – e os neurônios são ativados – para onde está a atenção. Sem ela não há consciência, não há aprendizagem e não há transformação. Todas possíveis mudanças que desejamos promover – de comportamento, hábitos, padrão de pensamento e cognição – envolvem conscientização e o direcionamento consciente da atenção.

A prática de mindfulness é uma das formas mais comprovadamente eficazes de trabalhar o controle sobre a atenção, voltar a mente ao momento presente e estar consciente dos pensamentos e emoções.

 

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