O que a vida espera de você?

Por Michele Müller

Em uma das minhas usuais caminhadas pelo bairro, deparei-me com uma fotogênica gatinha branca me espiando de dentro de uma casinha de cachorro, em uma terreno de uma casa desocupada. Quando agachei-me para fazer uma foto, fui surpreendida pela simpatia de um senhor que vinha trazer comida para ela. Foi então que descobri que se tratava de uma fêmea, particularmente arisca, que ele conseguiu conquistar depois de muito tempo de convivência. Revelou que a pequena morada de telhado azul, que havia comprado especialmente para a gatinha, pode ser puxada para perto da grade por um sistema de roldana que inventou.

Mas a parte mais interessante da visita vem sempre depois de saciada a fome da amiguinha felina. É quando ele estende um pano branco no chão e se deita no meio da calçada para brincar e acariciar a Mimi. “Ela precisa disso”, explicou. Ela e os outros gatos que, mesmo vivendo na rua e dormindo em casinhas em terrenos desocupados, tiveram o privilégio de serem adotados por esse mecânico de coração grande, que divide a casa com onze cachorros tirados da rua.

Os animais que estão sob sua responsabilidade lhe dão trabalho e lhe trazem preocupações: a principal delas, confessou, é que na sua falta voltem a viver na rua, correndo o risco de serem mal tratados ou de passarem fome. Mas eles não são os únicos a se beneficiar dessa relação: homem precisa dos afagos da gatinha assim como ela precisa dele.

A retribuição oferecida pelos bichos pode parecer insignificante para muitos, mas para aquele senhor é o propósito de sair de casa em um dia chuvoso, de deitar-se na calçada com a disposição de uma criança e de voltar com a sensação de missão cumprida. Não é movido por necessidade financeira, autocobranças ou pressões externas, mas por uma busca por sentido. Algo que, para o psicanalista e filósofo alemão Erich Fromm, está no fundamento da condição humana, apesar de muitas vezes ser reprimido, ao custo do que podemos chamar de saúde mental. Uma das formas de reprimir essa tendência é seguir compulsivamente o que ele chama de “rotina da fuga”.

Décadas depois de escritas suas obras, o consumo e a produtividade continuam sendo algumas das principais rotas dessa fuga, facilitada recentemente pelo sedutor universo virtual que carregamos nos bolsos. Em Modern’s Man Pathology of Normalcy (A Patologia da Normalidade do Homem Moderno), escreve:

“Nós não conseguimos suportar viver apenas saciando a fome e a sede sem dar um sentido à existência. Temos que encontrar alguma resposta ao mistério da vida e essa resposta deve ser tanto teórica como prática. Refiro-me ao fato de precisarmos de uma estrutura referencial que nos dê orientação, que de alguma forma torne significativo o processo da vida e nossa posição dentro dele”.

Para Fromm, esse propósito não é necessariamente produto de um planejamento ou de justificativas intelectuais, mas consiste em um objeto de devoção – “algo para o qual dedicamos nossas energias além da finalidade de produzir ou de reproduzir”.

Lançados em 1953, esses ensaios trazem uma reflexão incrivelmente atual sobre os parâmetros que utilizamos para definir os estados mentais – critérios que estão cada vez mais estreitos, traçados por uma sociedade que parece estar perdendo as referências de normalidade; que em sua determinação por encontrar explicações simplificadas isola a biologia dos outros âmbitos que compõem o ser humano, como o social e o espiritual. Aí se encontram a necessidade de vínculos e de servir a um propósito – de fazer parte de algo maior que nós.

Fromm não foi o único a escrever sobre a busca por sentido e sua relação com a saúde mental. Para o psiquiatra austríaco Victor Frankl é isso que nos move – e não o prazer ou o poder, como se havia sugerido. Após um período em campos de concentração nazistas, concluiu que é possível encontrar propósito mesmo nos períodos mais difíceis e que a falta desse motivador pode levar a excessos e compensações – hoje associados a diversos tipos de transtornos. Na obra Em Busca de Sentido, ele conta que durante a guerra tinha que ensinar àqueles sem esperança “que não importava o que eles esperavam da vida, mas sim o que a vida esperava deles”. A busca por sentido, portanto, só leva a algum lugar quando nos damos conta de que nós é que somos questionados pela vida – e não o contrário.

Frankl cita Nietzsche ao lembrar que “aqueles que têm um ‘porquê’ podem suportar praticamente qualquer ‘como’”. Esse porquê, sugere o psiquiatra, pode vir de diferentes fontes: flexibilidade diante de situações que não podemos mudar; auto-expressão e criatividade; e amor, ao interagirmos de forma significativa com outros e com o ambiente. Essa foi a fonte de propósito do senhor que acolhe os animais e de todos os que se preocupam com a falta que, um dia, farão a alguém.

Em uma época em que um dos produtos mais lucrativos do mercado editorial é um grosso manual de diagnósticos psiquiátricos, reflexões que abordam as necessidades humanas de forma abrangente e não as reduzem à biologia fazem-se ainda mais urgentes. Conforme esses pensadores já haviam deixado claro mesmo antes da era das pílulas, nem todas as respostas são encontradas em laboratórios e nem todas as soluções estão nas farmácias. A cultura na qual vivemos, nossas escolhas, as responsabilidades que abraçamos, a forma como compomos nossos dias e como interagimos são componentes básicos de quem somos e podem esconder a causa e a cura de muitas aflições.

 

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