Como a ação tira as emoções do controle, segundo a terapia japonesa

Por Michele Müller

A primeira vez que a tarefa de lavar a louça do almoço ficou a cargo do meu filho, na época com quatro ou cinco anos, não foi por imposição. Foi por insistência dele. Subiu em um banquinho e apertou com satisfação o detergente, depois a esponja, observando a espuma se formar. Ficou completamente envolvido e entretido em uma atividade que geralmente fazemos de tudo para evitar.

1890 Baby’s Annual Pictures and Stories for Little People, autor desconhecido

 

 

 

Essa atenção aos detalhes e essa entrega total às sensações que uma ação tão simples pode proporcionar fazem parte da sabedoria infantil que desaprendemos à medida que vamos ficando mais autocentrados. Até algo corriqueiro como limpar os pratos e observar a espuma escorrer com água morna, quando feito com atenção, pode acalmar a mente. Tanto que a característica terapêutica dessa tarefa já foi tema de um dos ensinamentos do monge budista Thich Nah Than no livro O Milagre do Mindfulness.

Quando conseguimos recuperar a capacidade que as crianças têm de direcionar totalmente a atenção àquilo o que estamos fazendo, das mais simples às mais complexas atividades, libertamos a mente do labirinto de sentimentos, anseios e preocupações que passam longe do aqui e agora. A ação, executada com presença plena, é de onde parte a mudança no cérebro, no comportamento e nas emoções.

A partir desse conhecimento, que é um dos pilares da filosofia oriental, o psiquiatra e filósofo japonês Shoma Morita desenvolveu, há cerca de oito décadas, um método terapêutico para lidar com ansiedade, depressão e outros transtornos da mente.

A terapia Morita vem aos poucos influenciando terapeutas ocidentais interessados em propiciar aos pacientes a possibilidade de estar no comando do seu comportamento, independentemente de como se sentem, e assim, ter uma vida produtiva e saudável. Na essência dessa psicologia estão a ação, a atenção e a aceitação – três princípios familiares àqueles que têm um mínimo contato com o pensamento oriental.

Segundo a terapia Morita e outras que se baseiam em sua filosofia, não temos controle sobre nossos sentimentos. Tentar mudar o que sentimos com a força da vontade, com longas reflexões sobre a origem dessa emoção ou com pensamento positivo coloca os sentimentos no foco da nossa vida, reestimulando-os constantemente.

Como não podem ser controlados, nos resta aceitá-los. Aceitar o que sentimos da mesma forma como devemos aceitar eventos externos sobre os quais não temos como interferir: não podemos controlar o tempo, portanto lamentar o calor só faz aumentar o incômodo.

Já nossos atos são controláveis – temos total poder sobre eles. E as ações que escolhemos, desde a mais despretensiosa tarefa, exercem uma enorme influência sobre o que sentimos. Assim, para os seguidores de terapias orientais, a ação deve ser a grande guia dos sentimentos. E não o contrário, como geralmente acontece – especialmente na sociedade ocidental, movida pelos desejos e emoções.

Em geral, consultamos a nossa disposição antes de partirmos para a ação. Somos escravos da motivação. As atitudes são guiadas – ou evitadas – pelos medos, fraquezas, vontade ou desânimo. E a louça vai se acumulando na pia. A palestra nunca é feita. O projeto sonhado continua sendo adiado. O casamento não melhora. A depressão sempre volta.

Segundo um dos princípios da Terapia Morita, “o comportamento abana a cauda das emoções”. Ao deixarmos que as ações abram o caminho das conquistas e da maturidade, estamos permitindo que sentimentos nasçam e morram, sem nunca deixá-los estar no controle. Conforme explica explica o psiquiatra americano David Reynolds em Constructive Living (Vida Construtiva), o mais recente de uma série de livros do autor sobre a linha terapêutica que desenvolveu a partir da sabedoria oriental:

“A Vida Construtiva coloca a responsabilidade do comportamento nas nossas mãos. Somos responsáveis por aquilo que fizemos. Ao mesmo tempo, ela nos permite a liberdade de sentir, reconhecer e até valorizar o espectro completo de sentimentos”.

Apenas dessa forma, defende, é que a maturidade toma o lugar do desejo infantil de se ter uma vida sem dor. Sem o sofrimento, sem a experiência de chorar as perdas e as faltas, não amadurecemos de verdade. Não que a dor ou qualquer outro sentimento, por si, traga crescimento: a sabedoria se forma lentamente a partir da forma como respondemos a essas emoções. É isso que nos prepara para uma vida plena agora, bem como para a perda de tudo, quando ela chegar ao final.

A obsessão ocidental pela felicidade está nos levando a um estado constante de ansiedade, nos confinando aos rótulos e diagnósticos que nos fazem esquecer nossa natureza flexível e resiliente. Está nos tornando doentes e tornando a própria felicidade algo inalcançável.

Ao colocar as emoções e a busca por prazer contínuo no centro da vida, esquecemos daquilo que as crianças sabem bem: que na observação atenta àquilo o que está fora de nós, ao nos entregarmos de forma plena a uma atividade, é que por vezes não sentimos o tempo passar. E que essa satisfação, também reconhecida como felicidade, tem algo em comum com a dor: ela desaparece, mas sempre vai reaparecer.

 

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