Os ensinamentos do experimento psicológico coletivo que presenciamos com a pandemia

Por Michele Müller

Tony Johannot, La légende de la sœur Béatrix.

Nos últimos meses, o mundo inteiro se viu trancado em uma sala de escape room. Assim como nesses desafios, que incentivam o trabalho colaborativo na resolução de um problema, entramos em uma espécie de armadilha cuja saída só é encontrada se o grupo trabalhar com o mesmo objetivo – todos ganham ou todos perdem.

Deste lado do mundo, resistia uma certa impressão de que o problema estava longe. Mas não levou muito para um vírus nos mostrar que as divisões são ilusórias e evidenciar o quanto estamos conectados. A pandemia colocou o mundo todo no mesmo estado em que ficamos quando estamos doentes: no momento presente.

Todos os planos – de um pacote econômico que o governo acabava de anunciar a um pacote de férias que uma família estava pronta a realizar – foram cancelados para que as atenções pudessem se voltar para o que realmente importa no presente: a recuperação a saúde. Com essa reorganização das prioridades, frustrações chegaram como um arrastão, atingindo a todos, mostrando-nos que não temos controle sobre tudo e, o pior: isso vale também no plano coletivo.

Quando nos deparamos com essa verdade, nossas estruturas mais profundas sofrem um terrível abalo. Sem a confiança no suporte coletivo, corremos risco de entrar em pânico e sermos cegados pela sensação de desamparo. Afinal, por mais dolorida que seja aquela rejeição ou aquela perda, no plano de fundo dos dramas individuais – com os quais aprendemos a conviver desde o berço – contamos com uma sociedade funcionado para nos garantir o conforto que tomamos como certo, amparando-nos como uma rede transparente que não enxergamos, mas confiamos que está lá.

Até que surge um fenômeno que não foi planejado, afetando todas as pessoas do planeta e exigindo soluções rápidas e sincronizadas. E nos faz perceber, de uma hora para outra, que nem sempre existe uma inteligência coletiva que tem repostas seguras e mantém inabalável a ordem que construímos. Em momentos como esse nos lançamos juntos ao incerto, fazemos jogadas arriscadas e nos deparamos com nossa precária capacidade de prever resultados, com a nossa fragilidade e, mais importante, com nossa interdependência e necessidade, urgente, de integração e cooperação.

Não demorou muito para que soluções para sairmos do escape room do coronavirus passassem a trazer um fundo ideológico e, portanto, a gerar divisões e disputas. Mas nos bastidores dessas discussões, representantes da ciência, da tecnologia e da saúde de todos os cantos seguiram trabalhando juntos na resolução dos problemas, conscientes de que evolução humana em qualquer campo do conhecimento só é possível com o compartilhamento de informações e, assim, aprimoramento coletivo das ideias.

Como em um retiro coletivo forçado, uma pandemia acompanhada de isolamento social leva todos a refletir sobre próprias atitudes e sobre mundo em que vivemos. Deparamo-nos com a oportunidade, ou até com a necessidade, de repensarmos modelos econômicos. Problemas fundamentais da sociedade tornaram-se explícitos e representantes dos dois lados do espectro político passaram a olhar para um objetivo comum, mesmo que de perspectivas diferentes.

A saúde passou a ser vista como questão pública e prioritária, a responsabilidade social pesou sobre cada indivíduo, a necessidade de conexão e contato tornou-se evidente, a nossa capacidade de adaptação tornou-se questão de sobrevivência, a forma como vivemos e nos relacionamos passou a ser questionada.

Para os economistas britânicos John Kay e Mervyn King, autores de Radical Uncertainty, não existe um modelo econômico ideal, bem como não há como prever quais acontecimentos e descobertas podem surgir, exigindo novas soluções econômicas e sociais.

Em mundo cujas inovações são constantes e rápidas – consequências do acesso livre à informação, trocas e influências culturais intensas (e, perdoem os conservadores, felizmente irreversíveis) – aquilo com o que podemos contar é nossa capacidade de refletir sobre os desafios que o futuro pode nos reservar. Podemos contar, lembram os economistas, com nossa capacidade de nos prevenirmos para essas situações, em movimento que está na contramão de convicções ou ideias inflexíveis de como o mundo deve funcionar.

Nada mais eficaz que uma pandemia para nos lembrar das nossas limitações e colocar a sociedade inteira, de uma só vez, em um estado reflexivo. Dependendo da forma como respondemos aos aprendizados que surgem disso, podem nascer novos princípios, novas soluções e uma nova consciência social. Ninguém escolhe o caminho incerto, eles precisam acontecer com a gente. Mas são as incertezas, e não a rigidez, que nos levam a melhores perguntas – aquelas que colocam em questão práticas já fragilizadas e abrem espaço para importantes discussões morais e significativos avanços.

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