Como as crianças guardam o que aprendem?

Por Michele Müller

Ensinar é ajudar a compreender e também ajudar a não esquecer. É função dos educadores não apenas construir conhecimento, como também possibilitar sua consolidação. Para isso, devemos entender como funciona a memória.

Brain and Body, Dr. Alesha Silvartha

 

A neurociência vem, nos últimos anos, apontando falhas comuns no sistema educacional tradicional. Apesar de não surpreenderem os profissionais atentos às práticas mais eficazes, oferecem base científica para que a educação, de uma forma geral, reconheça a necessidade de modernização nos métodos e seja mais receptiva a mudanças.

A conquista mais evidente, abraçada por muitas escolas, é o envolvimento das crianças de forma mais ativa na aprendizagem, ouvindo menos e fazendo mais. Mais lentamente avança o reconhecimento de que a educação, de forma geral, superestima nossa capacidade de memorização de fatos e informações, pouco considerando o processo de consolidação do conhecimento tanto na hora de ensinar quanto de avaliar.

Eis alguns fatos que devem ser levados em consideração no planejamento das aulas:

A memória não é como um filme. O cérebro não foi projetado para armazenar informações ipsis litteris. Como nosso sistema de armazenamento não é infinito, recorre a uma estratégia inteligente de gerenciamento de “espaço”.

Lembranças são reconstituídas. A solução encontrada pela natureza para administrarmos tantas informações foi nos dar a capacidade de reconstitui-las cada vez que elas são acessadas, de acordo o contexto.

O que guardamos são conceitos. As informações são guardadas na forma de conceitos, ou seja, somam-se a uma espécie de rede de dados flexível, em constante aprimoramento.

Precisamos criar associações. O novo conhecimento deve ser associado a outras informações para que se crie uma memória.

Informações visualizáveis são mais facilmente retidas. Quanto mais nítidas e conscientes forem as imagens mentais que formamos quando recebemos novas informações, mais provável a compreensão e a retenção.

Emoções sinalizam a importância da informação. O cérebro guarda o que é importante e o principal parâmetro para essa seleção são as emoções. Elas estão presentes na formação da memória e também influenciam a forma que as lembranças ganham.

O que não usamos vai fora. O que não for usado de forma recorrente é apagado da memória. Isso inclui o extenso vocabulário acadêmico que faz parte do conteúdo básico.

O que usamos muito vira automático. Parte do conhecimento é consolidado a tal ponto que passamos a usá-lo “sem pensar”, liberando energia mental para a aquisição de novos conhecimentos.

Nosso cérebro, portanto, foi projetado para dar sentido e não para memorizar. Por isso, o objetivo da educação deve ser a compreensão profunda do conteúdo.

Ao mesmo tempo, não podemos considerar a memória um recurso separado do processo de construção de sentido. Quanto mais conhecimentos temos consolidados, mais facilmente iremos compreender as novas informações e também memorizá-las, pois temos um número maior de possibilidades de novas associações, fundamentais para a aprendizagem e memória.

Ensinar é ajudar a compreender e também ajudar a não esquecer. É função da escola não apenas construir conhecimento, como também possibilitar sua consolidação. Isso parte da consciência do processo de memorização e, portanto, da necessidade de envolver em todas as etapas da aprendizagem, fatores como motivação, repetição, retomada periódica de conteúdo e o trabalho da compreensão a partir do ensino de conceitos.

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