As histórias que as plantas contam

Por Michele Müller

Philip Reinagle

 

 

 

 

 

 

 

 

A palavra sábio, assim como sage, em inglês, deriva do latim sapere, que significa “experimentar”. Em Portugal, a palavra perceber é também usada no sentido de entender – outro exemplo de como a linguagem relaciona a sabedoria com as experiências sensoriais – e não com o conhecimento intelectual de forma isolada.

E a ciência, ao fornecer meios para ampliar as percepções e permitir enxergar onde a visão humana jamais alcançaria, promove novos acesso à sabedoria e faz o que a botânica e escritora Robin Wall Kimmerer chama de “refinar a arte de ver”: lentes de aumento permitem conhecer a beleza da arquitetura da vida, descobrir a forma como as substâncias interagem e se desenvolvem e ganhar novas perspectivas sobre o mundo que nos cerca.

Mas existe uma infinidade de informações que se escondem além da matéria e dos limites das percepções humanas, incapazes de serem reveladas por instrumentos tecnológicos. O acesso a elas envolve outro tipo sabedoria, mais distante das percepções e do intelecto e muito valorizada em culturas indígenas.

Kimmerer, cidadã da Nação Potawatomi e criada dentro das tradições de povos nativos americanos, refere-se a esse conhecimento intuitivo como capacidade de escutar – não por meio da audição, mas pelo que considera como “vias emocionais e espirituais”. O conhecimento tradicional, ela diz, nos coloca em contato as histórias que cada ser tem a dividir conosco – o que acontece quando, conforme coloca Kimmer, “soubermos escutar tanto quanto sabemos ver”.

“A ciência nos pede para aprendermos sobre os organismos, enquanto a sabedoria tradicional nos pede para aprendermos com eles”. Aprender, cuidar, ser cuidado e escutar: essa relação mais pura e integrada do homem com o meio, como parte de um sistema e não se colocando acima dele, é a base do que Kimmer chama de reciprocidade, em entrevista a Krista Tippett.

O conceito parte do princípio que nosso papel não é o de tirar da terra, apenas. E o papel da terra não é apenas fornecer recursos à nossa espécie. Reciprocidade significa que não somente a terra nos sustenta, mas temos a responsabilidade de sustentá-la em troca. Dentro dessa noção, não somos apenas consumidores, mas seres humanos. Há uma enorme alegria que nasce de se fazer parte de um florescimento mútuo ao invés de uma definição mais estreita de sustentabilidade”.

Se o ensinamentos e as histórias das plantas não se revelam por meio das lentes nem nos chegam aos sentidos, como poderia haver compreensão? Para escutar e compreender o mundo natural, esclarece a bióloga, temos que reaprender com as crianças o modo de descobrir: prestando atenção.

“Dizemos que elas têm um modo inocente de ver das coisas, mas é na verdade um modo sábio. Essa atenção profunda que prestamos quando crianças é algo que podemos apreciar e reconquistar. Atenção é a porta para a gratidão, a porta para a curiosidade, a porta para a reciprocidade. E me preocupa enormemente que crianças hoje podem reconhecer cem logomarcas e apenas dez plantas”.

Nas mãozinhas, elas levam amostras das pequenas flores que encontravam pelo caminho – raramente percebidas pelos adultos, sempre apressados, olhando para seus telefones. Em nenhuma escola as meninas aprenderiam capacidade mais valiosa que a ensinada por seu avô em um passeio pelas ruas: prestar atenção às belezas que nos rodeiam.

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