A relação mente-corpo, segundo Virgínia Woolf

Por Michele Müller

11 de outubro de 2017

Antes de ser abordada de forma científica, a indissociabilidade corpo-mente inspirou muitas discussões filosóficas e reflexões literárias. A ilusória supremacia do intelecto sobre o fisiológico nas histórias foi observada por Virginia Woolf no ensaio “Sobre estar doente”, em que descreve as limitações da linguagem quando precisamos descrever aflições físicas.

“A literatura faz o que pode para sustentar que sua preocupação é com a mente; que o corpo é uma placa de vidro liso, pelo qual passa o olhar direto e claro da alma, e que o corpo, exceto no que toca a uma ou duas paixões, como o desejo e a ambição, é nulo, neglicenciável e não existente. Mas justamente o contrário que é verdade. O dia todo e a noite inteira ele interfere; embaça ou aclara, colore ou descolore, transforma-se em cera no calor de junho, adensa-se em sebo na escuridão de fevereiro. A criatura que vai dentro só pode olhar pela placa; não pode nem por um instante separar-se do corpo como a bainha da fala ou a vagem do grão”.

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Lavaleé

Os momentos em que o corpo falha também foram abordados por Proust, em O Caminho de Guermantes, como reveladores da evidência da força do fisiológico sobre o psicológico. “É a doença que nos faz reconhecer que não vivemos em isolamento, mas estamos presos a um ser de um outro âmbito, mundos distantes de nós, por quem é impossível nos fazermos entender: nossos corpos”.

Assim como aquilo o que nos define – o mosaico de emoções e pensamentos – é suscetível a estados físicos aparentemente fora do nosso controle, como coloca Proust, as manifestações do corpo também são influenciadas pela mente. O corpo, portanto, não é necessariamente esse estranho distante e desobediente. Nem a mente capaz de separar-se do solo biológico e emocional do qual se formou para apresentar uma razão pura, ou, como define Virgínia Woolf, uma “filosofia robusta”.  

As grandes guerras que ele (o corpo) trava por si, com a mente como sua escrava, na solidão do quarto, contra o ataque de febre ou o avanço da melancolia, são esquecidas. Não se vai longe em busca da razão. Para olhar essas coisas cara a cara seriam necessárias a coragem de um domador de leões; uma filosofia robusta; e uma razão enraizada nos intestinos da terra. À falta disso, esse monstro, o corpo, esse milagre, sua dor, logo nos fará descambar para o misticismo ou subir, com um rápido bater de asas, aos êxtases do transcendentalismo.

 

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