Crianças precisam de pequenas doses de perigo

Por Michele Müller

Diante das opções tentadoras de diversão eletrônica e da preocupação excessiva com a segurança, as crianças estão reduzindo drasticamente o tempo dedicado às aventuras nos espaços externos. Ao mesmo tempo em que as famílias parecem se incomodar com o uso exagerado de tablets e videogames, eles se tornaram soluções convenientes à tendência em afastar os filhos de qualquer tipo de risco. Afinal, telas e botões os mantêm entretidos sem oferecer os riscos que brincadeiras em playgrounds e espaços externos apresentam.

Uma pesquisa com duas mil famílias inglesas constatou que três em cada quatro crianças passam menos de uma hora diária brincando em ambiente externo – um tempo menor de contato com luz solar que o garantido a detentos das prisões. Nossa realidade não é diferente. E aqui há um agravante: temos menos alternativas interessantes de ambientes públicos destinados a brincadeiras ao livre.

Além de serem impedidas de brincar livremente, como resultado de vários tipos de medo que as cidades grandes nos impõem, as crianças perderam a confiança de seus pais, que em algum momento da história recente colocaram uma lente de aumento nas pequenas ameaças do dia a dia e resolveram que elas são totalmente irresponsáveis e desprovidas de noção de perigo.

Um dos fatores que mais pesa em nosso estilo de vida, a necessidade de segurança acabou influenciando até mesmo a forma como são planejados os espaços contemporâneos de brincadeira. Afinal, vivemos sob ameaça constante de processos e qualquer atividade que envolve o público infantil corre sério risco de gerar insatisfações com consequências legais.

Os medos e ansiedades dos adultos, desproporcionais aos verdadeiros riscos que a realidade traz, desconsideram a natureza da criança e mais prejudicam que protegem.

O perigo, em pequenas doses diárias, é tão fundamental para o desenvolvimento, que é o principal motivador das brincadeiras entre espécies mais evoluídas. Filhotes de mamíferos se divertem correndo riscos, testando seu próprio comportamento diante de situações perigosas simuladas nas pequenas lutas e aventuras de sua curta infância. E isso não ocorre por acaso, nem representa irresponsabilidade ou falta de noção: é parte do crescimento, do autoconhecimento, do respeito ao outro e do conhecimento dos limites do corpo.

A vida é cheia de riscos e a infância é a fase de treinamento para reais dilemas que requerem autoconfiança na hora de agir. Crianças privadas do contato com o perigo crescem sem coragem, dependentes, com altos níveis de ansiedade e sem noção de como lidar com situações sociais simples que não poderão ser evitadas pelos pais mais tarde.

Em países em que ambientes de lazer são levados a sério, a discussão (que mal chegou no Brasil) está tão avançada que estão revendo alguns de seus projetos mais modernos – que, aliás, são excelentes estruturas para promover o desenvolvimento das habilidades psicomotoras e sociais das crianças. O motivo: excesso de segurança.

Além de modernos, criativos e cheios de estímulos, muitos playgrounds contemporâneos de países desenvolvidos estão sendo repensados para trazer um certo risco. Voltam a ter cantos, pontas, superfícies duras, altura e mais probabilidade de gerarem batidas, quedas e machucados. Os pais excessivamente protetores terão que rever seus conceitos e entender por que as ataduras do Menino Maluquinho foram essenciais para a formação de um jovem feliz e bem resolvido, conforme Ziraldo concluiu a história.

Na década de 40, muito antes de termos comprovações científicas da importância dos riscos relacionados à brincadeira livre, o arquiteto dinamarquês Carl Sørensen criou um conceito de playground que foi espalhado por toda a Europa. Sua ideia era dar às crianças da cidade as mesmas chances de viver aventuras que eram privilégio das que cresciam no interior.

O Adventure Playground atualmente conta com cerca de mil espaços em diversos países, inclusive Estados Unidos e Japão. Equipados com muitos pedaços madeira e ferramentas de verdade, os parques permitem que os pequenos aventureiros construam seus próprios brinquedos, escalem cordas, subam em árvores e se sujem bastante.

Playground no centro do Porto, em Portugal

No Japão, a preocupação em expor crianças pequenas ao risco foi um dos principais fundamentos da concepção da escola projetada por um dos arquitetos mais conceituados daquele país na atualidade. Takaharu Tezuka projetou a Fuji Kindergarten, em Tóquio, levando em consideração as necessidades naturais das crianças – inclusive de se aventurar. Lá elas têm total liberdade de explorar o ambiente e passam a maior parte do tempo gastando energia nas áreas externas. Correm, em média, quatro quilômetros por dia e ganham naturalmente as habilidades psicomotoras que garantem seu desenvolvimento social e cognitivo. “Crianças precisam de pequenas doses de perigo. Nessas ocasiões elas aprendem a se ajudar. Isso é viver em sociedade. É o que estamos perdendo nos dias atuais”, destaca o arquiteto (em apresentação no TED).

 

Leia também: Por que as escolas devem investir em competências não acadêmicas 

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