A linguagem molda a forma como enxergamos o mundo

Por Michele Müller

9 de junho de 2017

 

Fritz Zuber-Buhler

 

Nossa extraordinária habilidade de comunicação, resultado de uma necessidade vital de conexão, é um dos aspectos mais fundamentais daquilo o que nos faz humanos. A linguagem, assim como a capacidade interpretar a mente do outro, partindo dos mais sutis e inconscientes sinais, é uma derivação da nossa interdependência, da busca pelo amor, aceitação e aprovação.

A comunicação oferece o conforto de termos testemunhas da nossa experiência nesse mundo. Mas mesmo com toda a sua complexidade, transforma apenas uma pequena parte desse filme mental caótico e subjetivo em informações que podem ser compartilhadas e que façam sentido aos outros. Muitos dos nossos pensamentos e sentimentos continuam desordenados, incomunicáveis e, muitas vezes indecifráveis. Outros são desfigurados por uma comunicação não apenas incompleta, mas suscetível a inúmeras falhas, sendo que muitas delas estão fora do nosso controle e jamais serão esclarecidas.

A linguagem pode não nos salvar da condição solitária de perceber o mundo de uma perspectiva única. Mas nos oferece o alívio de compreender e ser compreendido em um nível que, mesmo dando acesso à beirada do mar de percepções da nossa mente, favorece conexões profundas e significativas.

Além disso, ao tornar mais nítido aquilo percebemos e sentimos, nos permite ter um maior domínio sobre as emoções e ações. Sobre esse poder das palavras, a psicóloga e escritora americana Tara Brach, uma das mais populares professoras de mindfulness no Ocidente ensina, em uma de suas meditações guiadas: “Aquilo que você nomeia passa a ter menos controle sobre você. Nomeie um medo e será mais forte que ele. Dê nome a uma reflexão e você sairá do meio da nuvem de pensamento e estará aberto a algo maior”.

Ao ganharmos familiaridade com determinados conceitos, eles passam a fazer parte da forma como operamos. Se integram aos pensamentos, oferecem novas formas de interpretar o mundo e modificam ou formam os padrões de expectativas que temos com relação aos outros e a nós mesmos. Somam-se à nossa própria essência, que a fluidez da língua tem o poder de remodelar.

“(…) as palavras têm por característica fundamental serem um reflexo generalizado do mundo. Este aspecto da palavra conduz-nos ao limiar de um tema muito mais profundo e mais vasto – problema geral da consciência. As palavras desempenham um papel fundamental, não só no desenvolvimento do pensamento mas também no desenvolvimento histórico da consciência como um todo. Cada palavra é um microcosmos da consciência humana”, coloca Vygotsky em Pensamento e Linguagem.

Passamos a enxergar injustiças e desigualdades, a identificar melhor sentimentos como mágoa e remorso e a entender comportamentos movidos pelo orgulho ou ganância depois que esses conceitos são incorporados ao nosso vocabulário. Essa compreensão não ocorre de uma forma restrita e dentro de um tempo limitado. Depende de conhecimentos dominados em níveis variados — mesmo dentro de uma mesma faixa etária e contexto cultural – e aprimorados no decorrer de toda a vida, nas diversificadas formas de interação social e troca de informações. E por não se reduzirem a um conjunto de regras que podem ser transmitidas por meio de métodos sistemáticos, com resultados facilmente medidos, acabam trabalhados no meio acadêmico apenas de forma indireta e não planejada.

A educação formal, em geral, espera que estudantes ganhem naturalmente a capacidade de compreensão necessária para assimilar uma quantidade de informações crescente em volume e complexidade. Desconsidera que a comunicação, com suas possibilidades ilimitadas, representa um desafio para muitos e envolve capacidades que podem ser exercitadas no ambiente escolar.

Práticas que estimulam o desenvolvimento das habilidades verbais são fundamentais na superação de dificuldades acadêmicas e, mesmo entre aqueles que não se intimidam com a flexibilidade que a linguagem exige, exercem um grande impacto na forma como se relacionam com o mundo.

O ensino explícito de conceitos, apresentados e exercitados em diferentes contextos sociais e em conjunto com outras estratégias de compreensão, facilita a aprendizagem, estimula a leitura e o interesse pela língua e favorece a articulação das observações e sentimentos. Mais que isso, ajuda na formação do pensamento crítico e da consciência da intenção por trás dos discursos; permite a reinterpretação do mundo e da natureza humana de forma mais analítica e flexível; dá forma às posições e ideias; é fundamental na resolução de conflitos – internos e sociais – e no sucesso dos relacionamentos.

O exercício da linguagem, portanto, abrange domínios distantes da complicada e nomenclatura gramatical e das análises sintáticas que ensinam na escola, aniquilando em muitos o amor pela língua. Envolve capacidades que não são esquecidas após a prova e que são fundamentais na formação de pessoas realizadas e bem sucedidas.

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