A linguagem molda a forma como enxergamos o mundo

Por Michele Müller

 

Fritz Zuber-Buhler

 

Nossa extraordinária habilidade de comunicação, resultado de uma necessidade vital de conexão, é um dos aspectos mais fundamentais daquilo o que nos faz humanos. A linguagem, assim como a capacidade interpretar a mente do outro, partindo dos mais sutis e inconscientes sinais, é uma derivação da nossa interdependência, da busca pelo amor, aceitação e aprovação.

A comunicação oferece o conforto de termos testemunhas da nossa experiência nesse mundo. Mas mesmo com toda a sua complexidade, transforma apenas uma pequena parte desse filme mental caótico e subjetivo em informações que podem ser compartilhadas e que façam sentido aos outros. Muitos dos nossos pensamentos e sentimentos continuam desordenados, incomunicáveis e, muitas vezes indecifráveis. Outros são desfigurados por uma comunicação não apenas incompleta, mas suscetível a inúmeras falhas, sendo que muitas delas estão fora do nosso controle e jamais serão esclarecidas.

A linguagem pode não nos salvar da condição solitária de perceber o mundo de uma perspectiva única. Mas nos oferece o alívio de compreender e ser compreendido em um nível que, mesmo dando acesso à beirada do mar de percepções da nossa mente, favorece conexões profundas e significativas.

Além disso, ao tornar mais nítido aquilo percebemos e sentimos, nos permite ter um maior domínio sobre as emoções e ações. Sobre esse poder das palavras, a psicóloga e escritora americana Tara Brach, uma das mais populares professoras de mindfulness no Ocidente ensina, em uma de suas meditações guiadas: “Aquilo que você nomeia passa a ter menos controle sobre você. Nomeie um medo e será mais forte que ele. Dê nome a uma reflexão e você sairá do meio da nuvem de pensamento e estará aberto a algo maior”.

Ao ganharmos familiaridade com determinados conceitos, eles passam a fazer parte da forma como operamos. Se integram aos pensamentos, oferecem novas formas de interpretar o mundo e modificam ou formam os padrões de expectativas que temos com relação aos outros e a nós mesmos. Somam-se à nossa própria essência, que a fluidez da língua tem o poder de remodelar.

“(…) as palavras têm por característica fundamental serem um reflexo generalizado do mundo. Este aspecto da palavra conduz-nos ao limiar de um tema muito mais profundo e mais vasto – problema geral da consciência. As palavras desempenham um papel fundamental, não só no desenvolvimento do pensamento mas também no desenvolvimento histórico da consciência como um todo. Cada palavra é um microcosmos da consciência humana”, coloca Vygotsky em Pensamento e Linguagem.

Passamos a enxergar injustiças e desigualdades, a identificar melhor sentimentos como mágoa e remorso e a entender comportamentos movidos pelo orgulho ou ganância depois que esses conceitos são incorporados ao nosso vocabulário. Essa compreensão não ocorre de uma forma restrita e dentro de um tempo limitado. Depende de conhecimentos dominados em níveis variados — mesmo dentro de uma mesma faixa etária e contexto cultural – e aprimorados no decorrer de toda a vida, nas diversificadas formas de interação social e troca de informações. E por não se reduzirem a um conjunto de regras que podem ser transmitidas por meio de métodos sistemáticos, com resultados facilmente medidos, acabam trabalhados no meio acadêmico apenas de forma indireta e não planejada.

A educação formal, em geral, espera que estudantes ganhem naturalmente a capacidade de compreensão necessária para assimilar uma quantidade de informações crescente em volume e complexidade. Desconsidera que a comunicação, com suas possibilidades ilimitadas, representa um desafio para muitos e envolve capacidades que podem ser exercitadas no ambiente escolar.

Práticas que estimulam o desenvolvimento das habilidades verbais são fundamentais na superação de dificuldades acadêmicas e, mesmo entre aqueles que não se intimidam com a flexibilidade que a linguagem exige, exercem um grande impacto na forma como se relacionam com o mundo.

O ensino explícito de conceitos, apresentados e exercitados em diferentes contextos sociais e em conjunto com outras estratégias de compreensão, facilita a aprendizagem, estimula a leitura e o interesse pela língua e favorece a articulação das observações e sentimentos. Mais que isso, ajuda na formação do pensamento crítico e da consciência da intenção por trás dos discursos; permite a reinterpretação do mundo e da natureza humana de forma mais analítica e flexível; dá forma às posições e ideias; é fundamental na resolução de conflitos – internos e sociais – e no sucesso dos relacionamentos.

O exercício da linguagem, portanto, abrange domínios distantes da complicada e nomenclatura gramatical e das análises sintáticas que ensinam na escola, aniquilando em muitos o amor pela língua. Envolve capacidades que não são esquecidas após a prova e que são fundamentais na formação de pessoas realizadas e bem sucedidas.

Michele Müller

13 novembro 2017

Como a disciplina ajuda no controle das emoções

Costumamos associar rotina a algo chato e sem graça pelo simples fato de que é sempre bom sair dela. Para as crianças, que adoram novidades, fazer uma coisa

Michele Müller

28 Fevereiro 2017

Mais jogos, menos conteúdo

Se quisermos alcançar melhores resultados acadêmicos devemos investir mais tempo em atividades intelectuais, certo? Essa é a lógica que molda o sistema educacional atual, direcionando à sala de

Powered by tnbstudio